Sensações esparsas: a experiência do Cambridge ou uma psicanálise nômade


Alessandra Sapoznik; Luiza Sigulem; Miriam Chnaiderman; Paula Janovitch; Pedro (Peu) Robles e Soraia Bento

“Movo-menuma paisagem onde a revolução e amor fazem discursosdesconcertantes” ( Char, René, Poems ( à Aragon) 3 dezembro do 1931)

Nesse grupo há quem pense com os olhos, veja comos ouvidos e quem escreva com o olhar.

Somos, enquanto coletivo, uma soma de afinidades e singularidades. Essa produção é o reflexo do nosso processo de trabalho que se encontra em plena construção. Nosso grupo nasceu a partir dos interesses comuns que já circulavam nos espaços de trabalho do Departamento de Psicanálise, e assim,  irmanados pelo encantamento com a cidade e com a imagem, permanecemos. Esse repertório nos une e nos leva a uma perambulação permanente que constrói uma cartografia própria.

Partimos do desejo de conhecer a cidade através de uma visão de psicanálise que excede o interior do sujeito e se expande para uma experiência estético-reflexiva sobre o que circula entre os campos social e individual. Iniciamos nossas atividades como "escutadores” daquilo que nos convida a cidade.

Miriam havia trabalhado em  um processo coletivo de adaptação teatral de um texto de Brecht, Na selva da cidade , feito pelo grupo Mundana Cia. A peça foi sendo construída nas experiências de ocupar espaços pela cidade. Participamos de ensaios e discussões com o grupo.

Durante essa atividade, na prainha do SESC Pompéia concebemos outros caminhos que já se anunciavam.

Novos roteiros foram projetados: uma visita  a um conjunto habitacional  que foi pensado como proposta inovadora  de democratização de moradia através da locação social, chamado Parque do Gato passou a ser um dos “lugares de memórias difíceis” da cidade de São Paulo. Essa experiência dimensionou a complexidadedas questões urbanas que enfrentaríamos. Penetramos uma franja de miséria, descaso público e riscos insuspeitáveis no universo “marginal".

Para nosso alento e surpresa seguimos para uma outra visita, convidados pela residência artística da Ocupação Cambridge para pensarmos algum projeto conjunto. 

 Escolhemos detalhar essa experiência que nos absorveu desde nossa chegada lá, pelo enorme impacto que provocou em todos. O grupo acostumado com as deambulações, viu-se capturado por um território fixo.

Um pouco dessa história:

O Hotel Cambridge, desapropriado pela Prefeitura em 2010,  foi ocupado em novembro de 2012 pelo MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) como parte de uma ação coletiva de luta por habitação popular no centro de Sao Paulo. O Cambridge é atualmente  considerado uma das maiores ocupações da  América Latina, abrigando 170 famílias (aproximadamente 500 pessoas) compostas,na sua maioria,  por brasileiros, mas também imigrantes e refugiados de países como Bolívia, Haiti, Palestina, República dos  Camarões e República Dominicana.

Miriam relata:

“Chegar ao Hotel Cambridge já é uma experiência singular. Andar pela rua que desce até a Av. 9 de julho, onde fica o edifício, passar pelo mercado Ben-Hur onde adolescentes, de diferentes não-lugares,  conversam na busca de intensidades da noite, passar pela casa noturna gay que guarda o mesmo estilo anos 50, e depois, virara esquina para alcançar aquele edifício monumental, lindo. Em frente, alguns refugiados falam outras línguas. Fumando, olhando a rua, encontrando parceiros.

Paula conta:

No centro os estranhamentos se fazem de forma sutil,  silenciosos e corrosivos porque  não conseguimos distinguir  rapidamente o que no centro é nosso e o que foi inventado para acreditarmos que nos diz respeito.  Tudo fica muito embaralhado, como se  uma cidade invisível  morasse dentro de uma outra, visível,  que esta ali,acessível e próxima, pronta para ser usada.

Nos últimos seis meses, o exercício de estar em contato com a vida do centro passou a ser uma rotina pra mim. Através do  grupo “escutando a cidade”,  todas as terças-feiras aconteceu por aproximados 5 meses, no antigo Hotel Cambridge, uma roda de conversa com os moradores das Ocupações da área central. Sempre que vou pra lá, me deparo no meu percurso  com a Ladeira da Memória e aquele Obelisco pontudo e  escondido na encosta da rua Xavier de Toledo. Ele fala de uma Memória Monumental  da cidade que me parece cada vez mais nebulosa e pouco significativa do que realmente seria  a memória de todos nós.

Bem  próximo da Ladeira da Memória, está o antigo Hotel.  Dentro dele  outras histórias   enchem de vida  o centro que por tanto tempo ficou sem moradores e silencioso...

Miriam novamente

Sempre adoramos nos perder pela cidade....

Ter a experiência de ser tragado pela cidade, pelos seus redemoinhos e intensidades, uma vertigem necessária no abandono da zona de conforto em que circulamos enquanto psicanalistas. 

Alê conta

As cidades sempre exercem uma enorme atração sobre mim e ativam uma espécie de pulsão exploratória que se traduz em uma vontade irrefreável de ir desvendando lugares (sinto-me como uma criança vendo as coisas pela primeira vez) e a maneira como faço isso é por associação livre. Vou andando e me deixo levar por pequenos detalhes que chamam  minha atenção: uma placa de ferro, uma fachada, um cheiro, uma lojinha.

O mais perturbador é que posso fazer esse exercício de "me deixar" em muitas outras cidades do mundo porém, em São Paulo, não consigo agir da mesma maneira. Não consigo ter a mesma liberdade para fazer as minhas associações,  me sinto insegura, perco o faro. E me incomoda demais me sentir assim em relação à minha própria cidade. Entrar em contato com o estranho e o desconhecido  que tanto me atrai quando estou fora, aqui gera  tensão e me paralisa.

Soraia relembra

A rotina de ir ao centro guiada pelo convite que o Ocupação Cambridge faz com toda sua contradição me levou a perceber um vício no olhar/escutar. Vou desde o ônibus, em horário de rush, ouvindo os sons mudos dos cidadãos mergulhados nos seus celulares, desdenhando o espaço coletivo. Ouço as conversas entre novos amigos que a geografia cria: muitas pessoas tomam a mesma condução, no mesmo horário, por anos, e ouço ainda os ruídos internos que nunca me abandonam.

Quando criança , fazíamos as compras das roupas do dia-a-dia num lugar chamado pela minha mãe de cidade. O centro era a cidade, o comércio era a cidade. Tempo de consumo pela necessidade. Curiosa imagem, onde circulavam as pessoas de todas as camadas sociais, ali era a cidade, vivíamos no bairro.

Miriam e o encontro com a Ocupação

Fomos até o Hotel Cambridge como um grupo de psicanalistas que se dispunha a refletir sobre a errância, sobre a cidade. Queríamos nos impregnar da fuligem, do asfalto, do burburinho, e sermos afetados pela cidade. Queríamos mergulhar na cidade para refletir sobre a psicanálise a céu aberto. Uma psicanálise andarilha.... Antônio Lancetti escreveu sobre uma psicanálise caminhante.

Assim é que, através da Luiza, Ícaro Lira, um artista residente dessa ocupação, nos contactou, pedindo atendimento para alguns moradores. Nós poderíamos sim, cuidar de encaminhamentos. Mas estávamos  interessados em entender a ocupação enquanto um todo, em refletir sobre a moradia, sobre as subjetividades que se formam nessas condições-limite.

Fomos ao Cambridge num sábado. Peter Pelbart falaria e havíamos marcado uma reunião com Danilo, uma das lideranças do MSTC. Queríamos deixar claro que não faríamos grupos terapêuticos, estávamos propondo uma roda de conversa aberta.

Alê e a experiência nas rodas de conversa 

Quando faço essa descrição, me vem à mente as histórias que escutamos dos moradores nas nossas rodas de conversa de como foi ocupar esse prédio, e outros também.

Mas a primeira que escutei, foi no primeiro dia de visita, vinda da boca do Danilo. Ele usou a palavra nascimento para descrever a sensação de estar em um lugar escuro, sujo, sem poder sair por uma semana e de repente alguém conseguir fazer a ligação da luz, outra fazer o banheiro funcionar. A partir daí começa o trabalho dessas pessoas,  de fazer com que um lugar fechado e abandonado há anos revide e comporte um estacionamento de carrinhos de bebês.

Miriam e a experiência de estar no Hotel Cambridge

Entrar pela porta de ferro que separa a ocupação da rua é sempre emocionante. A porta se abre e zelosamente somos interrogados sobre nossa ida. Temos que deixar o nome. Há uma comissão de frente que não deixa entrar estranhos. Se alguém quer levar um namorado ou namorada tem que deixar o nome com alguns dias de antecedência. Depois eu veria que o controle é feito também através de câmeras na sala onde fica a direção da ocupação.  Esse nível de organização e de controle surpreende.

Chegar ao Hotel Cambridge e, depois de explicar a razão de estar lá, ver aquele hall cheio de brinquedos construídos com pneus e madeira, ver mães acompanhando seus filhos que brincam, subir as escadas e chegar na cozinha e no mezanino, ver como estão equipados, que vendem bolo durante a semana, é algo inesperado. Depois, já no grupo, as pessoas falariam dos enormes preconceitos que existem em torno das pessoas que vivem em ocupações.

Alê, sobre o edifício

Quando entro pela porta vermelha da ocupação Cambridge, sempre penso: que porta tão estreita para um lugar tão grande, aqui dentro é um mundo!

Bem, mas eu queria falar da minha primeira vez...da minha primeira vez em uma ocupação. De entrada você se depara com aquele saguão, os pneus, o parlatório, a lousa com os avisos, os cartazes. E com o tempo fomos descobrindo outros espaços: a cozinha,  a horta, o estúdio de música, o mezzanino com aquele manequim meio surrealista pendurado no teto, o bazar, o salão de beleza,a oficina de costura e a última descoberta, essa para mim a mais tocante de todas, o "estacionamento" dos carrinhos de bebês.

A experiência de Soraia

Na portaria, encontro o rapaz que cuida das assinaturas de quem chega e quem sai, sentado ali no balcão, comendo um prato cheio de arroz, feijão , linguiça e farofa. Prato de trabalhador braçal. - “Não tive tempo de cozinhar, a vizinha trouxe da casa dela pra mim". Logo chega da rua uma moça, outra vizinha: “ - ai, que fome!! -vem cá, dá pra dois!”  e sem nenhuma cerimônia dividem o garfo, o prato e o que tem dentro.  Ainda me oferecem um bocadinho porque dá para três. Encanta-me a cordialidade e penso que lá é assim, tudo junto e misturado. Será mesmo? Não, nem tudo, certamente!

Esse será um tema muito importante na experiência vivida entre nós. Compartilhar espaço  físico, sonhos de conquista de moradia e ações da militância não abre necessariamente, uma possibilidade de intercâmbio das histórias pessoais. Descubro uma outra faceta dessa luta: uma posição  firme e clara dos participantes sobre manter os códigos individuais ou familiares sob a guarda do espaço privado.

Miriam e os não-lugares que se tornam espaços

Sempre lugares de passagem, na ocupação a escada é passagem obrigatória. Não há elevadores e todos sobem e descem as escadas em movimento contínuo infinito.  E lá vimos cadeirantes, mães com bebês de colo, pessoas adoentadas, famíliascom crianças de todas idades, subindo e descendo. Muitas vezes até os catorze andares.  os horários onde a movimentação é maior. São os horários de ir para o trabalho ou da volta. Um estranho trânsito, o rush da cidade vivido naquela escada.

Soraia : Uma noite, um grupo

Arrumando as cadeiras  para constituir o espaço grupal, encontro pedaços de corpos humanos jogados no chão. Faço uma aproximação ressabiada, são braços e mãos prontos pro abraço, prontos para a batalha pela sobrevivência, prontos para construir, limpar, arrumar.... vejo que são partes de vários manequins que foram desmontados, sabe-se lá porquê. Uma intervenção artística ou uma brincadeira para assustar um tolo desavisado? Um des cuido? Assim seguimos, parecendo que só a mim aquilo chamava atenção.

O grupo acontecendo e aqueles pedaços a me lembrar que aqui tem sangue que corre pelas veias. Sinal contraditório que falada luta travada pelo direito à moradia, mas também nas dores pelas perdas, como sinal de vida pulsante. O sangue a lembrar da porta de entrada do prédio pintada de um vermelho vivo. Nascimento e morte.

Qual é o sentido maior desse adereço nas bordas do mezanino? Com os sentidos bastante aguçados vou ouvindo o relato denso da empreitada da Ocupação. Dia D, Dia de Festa.. Faz-se claro o ambiente, fruto do trabalho orquestrado. Cada um com o seu fazer por todos e pra cada um. Tantos heróis que sabem que só a força do coletivo para levá-los a alcançar seus sonhos. Foram dias de superação suportados pela solidariedade e pela forçam otivadora.

Intuíamos os não-ditos. Tem conflito, dor ,desamparo? Será que só tem bravura?

Aos poucos o diálogo foi permitindo a emergência de experiências comuns de gente comum.

Paula: ritual de confiança

Nomezanino do prédio, todas asterças-feiras, acontece a nossa roda de conversa. Num ritual de confiançapuxamos  as cadeiras de plástico e  vamos sentando até formarmos uma aliança. Osruídos da cidade entram pelas frestas do prédio e muitas vezes sentam na rodatambém.  Não dá pra esquecer que a rua é logo ali e afronteira é tênue entre o dentro e o fora. Aos poucos a pressa, a falta de tempo, osafazeres do dia vão cedendo lugar  à história de cada um. Quase como uma catarse as histórias se ligam formando umeu repletos de nós.  Abre-se uma fissuraentre a cidade visível e invisível e na duração de uma hora e meia aquelevestimenta de pressa, da cidade que não pode parar, enrijecida nas figuras depedra que habitam a versão mais  aparentede São Paulo, se desfazem. Tenho a nítida sensação que os ponteiros andam maisdevagar a medida que a roda vai se tornando mais envolvente.

A cada semana, por mais que os integrantesmudem,  entramos em contato com uma camadado prédio, como seexplorássemos um pequena  cidade por dentro, nas suas intimidades, com histórias que mudam conforme o pontode vista de quem entra na roda. Conhecemos quartos com portas fechadas, “copinhas”compartilhadas e solitárias, corrimãos perigosos, andares altose baixos, cantos imprecisos e aqueles silêncios e vazios que mesmo nosubstantivo de uma Ocupação cavam como cupins um espaço oco dentro da gente e se instalam sem pedir licença. Acho quesó agora  estamos chegando no centro eparece bem  mais longe do que a genteimaginou no começo.

Alê: que lugar é esse

Frequentar a ocupação restabeleceu para nós apossibilidade de uma outra forma de circulação, não apenas pela cidade mas apossibilidade de adentrar outros mundos, outras formas de vida. Quero falar dodentro e fora, do diferente, daquilo que em nós é ao mesmo tempo estranho e familiar, deque quando eu estou nos grupos existe uma parte de mim que  se sabe analista mas outra que está em umlugar mais híbrido,que lugar é esse?

Miriam e as casas nômades

Sabemos que o Cambridge é um lugar já conhecido,mapeado. Mas, estar em meio a uma ocupação fez com que nos indagássemos sobre apossibilidade de construir casas nômades (Texto da Eliane Brum: Casaé o lugar onde não tem fome, ElPaís).  Ir atrás da errância que nos constituiu comogrupo, buscar o inexplorado de uma cidade como São Paulo, foi para isso quenossa experiência no Cambridge nos instrumentou. Nossa gratidão.

Soraia, ainda naquela noite, naquele grupo…

Uma ocupante contaque só depois de passar 15 dias internada entre a vida e a morte percebeu ogostoso de ser cuidada pelo outro. Nunca tinha sido cuidada.já não queria sairdo hospital. Queria viver na retaguarda, porque lá haviam tantos médicos eenfermeiras fazendo a vida dela ser mantida. O seu sangue teima em se esvairatravés de qualquer machucado. Entendo os corpos aos pedaços no chão, entendo osangue que não saía da minha cabeça. Essa mulher que não aguenta mais sermachucada. Um momento da atenção de todos, mas também um pouco de tensão.Silêncio… queda da fortaleza. o grupo então se abre para o lado escuro de cadaum. Aparecem outros dias de abandono.

Solidão. Luta!Palavra-tatuagem porque não me saía da cabeça. Nesse grupo, destacam-se asmães, na sua esmagadora maioria, carregando os filhos pela escada, pra cima epra baixo todos os dias. Reflito que o desamparo as levou a rememorarexperiências infantis. Toda mãe foi um dia uma filha e as identificações àsvezes apareciam como mistura entre sujeito e objeto, porém o desejo deliberdade gritou mais alto na decisão de seguirem seu caminho sem seusparceiros, pais dos filhos. Não aceitam qualquer acordo para estar junto quandojá não são companheiros em suas jornadas diárias. Num instante, passam a falara partir de um único lugar, são mães que superam a ausência dos pais dos seusfilhos. Voltam as heroínas, mais humanizadas, sem duvida. Melhor assim! Nãofalam como mulheres que se sentem sozinhas. Não se sentem sozinhas .Sentem afalta que os filhos sentem. Os homens do nosso grupo não são pais ainda, massão filhos que sofreram a falta de seus pais também. Eita mundo cão!Anunciva-se uma espécie de levante feminino e agora quero ver quem segura essamulherada.

Coube aos homensrestituir um lugar para os pais. Transcrevo: – "Não foi grande coisa, masé meu pai e  gosto dele assim mesmo.Claro que é diferente  com a mãe, pelamãe daria a vida". - "Eu também” os outros concordaram. Entretanto,que fique claro,  os filhos querem buscarseus pais mesmo assim! Fomos tateando um jeito para garantir um lugar paraeles, falíveis, mas quem não é? Será que elas conseguem se refletir na imagemdo ser com fendas, mas sem perder a força e sucumbir nas tragédias vividas?Precisamos saber dessa condição para possibilitar as entradas e saídas dooutro. Um lindo depoimento vai dando ensejo ao final elaborativo naquele dia: afilha pequena, conta uma delas, elogiou um dia, seu pijama com coraçõesdesenhados e uma frase sobre amor. Um pouco de cor- de-rosa açucarado meacalentando. A mãe conta pra filha que ganhou há muitos e muitos anos do pai damenina. A menina surpresa tenta imaginar, pela primeira vez, um casal para asua origem e indaga se eles já tinham sido namorados. A mãe confirma que sim,há muito tempo. Tempo para pensar no que constitui cada um. Comovente é a forçada palavra que circula e cria sentidos.

Saímos com a emoçãoà flor da pele. Uma pizza   é entreguepela moto girl que participou do grupo. Reconhecimento e gratidão deles.  Com a pizza nas mãos precisávamos nos sentarfora dali. Buscamos uma mesa no bar do BinLaden, figura folclórica quepersonifica o tirano nos trajes, mas que acolhe toda a diversidade que circulanaquele quarteirão. Esse  espaço ao lado,fora dali e ainda tão ali. Não dá para ir embora de uma vez .Uma cerveja,vários copos, guardanapo para a gordura do queijo que transbordava e celebramosmais um dia naquele lugar contraditório e excitante. Será que conseguiremosdescansar?

O que fica disso tudo

Nesses últimos meses, deparamo-nos commuitas questões.No início nos perguntávamos se os moradores viriam por livre e espontâneavontade, já que algumas atividades de militância contam pontos e alguns delespoderiam relacionar uma coisa à outra. Trabalhamos grupalmente essa distinção.

Outra questão importante é a saturação de propostas, projetos, grupos queacontecem semanalmente na ocupação . Atém das atividades coletivas  dentro da ocupação há o trabalho de cada um com pesada carga horária. Mesmo assim algunscomeçaram a frequentar quase assiduamente o grupo, compartilhando  suashistórias de vida e escutando as dificuldades,trajetórias e opiniões de seus companheiros.

Outrosdemonstravam a dificuldade em compartilhar problemas com a vizinhança, parafalar de seus problemas e sentirem-se expostos e vulneráveis a comentários paraalém das rodas de conversa.

Temospensado sobre os desdobramentos daquilo que vimos escutando nas rodas deconversa. Esse é um trabalho em processo que seguirá por novos caminhos daqui aum tempo. Alguns pedidos dos moradores nos levaram a pensar numa rede deencaminhamentos para psicoterapia individual ou grupal. Alguns desejos nossosde retomar percursos fora do prédio vêm sendo gestados.

Nessetempo de intervenção fomos todos atravessados por vicissitudes políticas maiores.  Houve toda a tramitação do impeachment e asmanifestações contrárias. Além disso, as eleições para prefeito reacenderam o medo do desmontedesse grande projeto de moradia popular em gestação As forças deresistência não bastaram.

NoCambridge,  aconteceu o momento dadecisão de quem vai ficar e quem vai embora daquela ocupação. Não se trataapenas do desejo de cada um . O grupo foi minguando por questõesque não se limitam a vontade dos participantes, mas aos atravessamentos sociaise políticos que estes moradores estão expostos no seu dia a dia.

Tudoisso nos obriga a reflexões que ainda estão em processo de elaboração.  De que modo cada um se apropria do que lhe ésingular quando há uma realidade tão crua? Ou, como é teralgo próprio quando cada escolha pode pesar na contagem dospontos que levam a conseguir, ou não, uma casa? Existe um coletivo quando aluta é por um chão próprio? O coletivo possível é a militância?

Estamosem pleno processo de reflexão do que vivemos no Cambridge. Absolutamentemarcados por essa experiência. Como psicanalistas e como cidadãos.

Terminamoscitando uma inscrição encontrada na ocupação das escolas secundaristas:

Ocupamoso presente para não invadirem o futuro



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