Essa página contém os textos produzidos pelo coletivo e os áudios das mesas.

Abertura

por Alessandra Sapoznik

Em nome da Comissão organizadora (composta por Miriam Chnaiderman, Paula Janovitch, Pedro Robles,  Soraia Bento, Luiza Sigulem e Alessandra Sapoznik). E do Departamento de Psicanálise,  queremos  dar-lhes às boas vindas.



Foi através de um urgente desejo de cidade, para usar um termo do Peter Pál Pelbart, mais precisamente  um desejo de ocupar e viver a rua, de cruzaras fronteiras de nossa cidadela, de conhecer outras formas de viver e habitar a cidade e de participar ativamente dos acontecimentos sociais e políticos que vem nos atravessando nos últimos anos, que um grupo de psicanalistas do Departamento de Psicanálise e uma antropóloga,  se juntaram em torno de uma atividade que denominamos escutar a cidade.

Inicialmente alguns queriam se aproximar da cidade através das lentes de uma câmera, olhar a partir daquilo que nos olha, enquanto outros queriam ter a experiência de fazer derivas. Rapidamente compreendemos que  olhar a cidade e o andare a zonzo, isto é, o perder tempo vagando sem objetivo,  eram atividades não apenas compatíveis, como complementares.

Partimos do princípio que o espaço urbano pode ser lido pulsionalmente: permanentes quiasmas de olhares cruzados que investem libidinalmente a urbe  ao mesmo tempo em que ela nos investe.

Começamos nossos percursos acompanhados de alguns pressupostos:

1. A possibilidade de colocar em prática uma escuta analítica que excede o interior do sujeito. Uma escuta dirigida aos movimentos que a cidade apresenta.

2. A  suposição de que a errância não se constitui apenas como um fenômeno psicopatológico, mas também como afirmação de outras formas possíveis de existir.

3. A afirmação de Benjamin de que a dificuldade não reside em orientar-se em uma cidade, mas perder-se nela. Para isso é necessário tempo e uma dose de anonimato.

Também fomos descobrindo um novo mundo, onde a arquitetura,o urbanismo,  a psicanálise e a política podiam conversar, e isso nos encantou.

Através das publicações do arquiteto italiano Francesco Careri e das ações do coletivo Stalker, resgatamos o olhar dos surrealistas que afirmavam a existência de um inconsciente dos centros urbanos.  Queríamos ir atrás de escutar a polifonia de que fala Canevacci.  Queríamos viver a experiência de sermos estrangeiros no território que ocupamos, por acreditar que ao descondicionar nosso olhar, poderíamos resgatar para nós mesmos a cidade como paisagem habitada. Retornar da geografia à paisagem. Da estatística às formas de vida que brotam do concreto. A São Paulo invisível, dita periférica (ainda que possa estar localizada em regiões geograficamente centrais). Território em geral  evitado à todo custo porque ocupa , no imaginário da classe hegemônica, o lugar do estrangeiro, do ele mento ameaçador,  do unheimlich urbano.

Aos poucos fomos entendendo que o ato de caminhar é também um ato político na medida em que nos permite uma apropriação distinta do território, uma vez que o processo de deslocar-se diminui  as distâncias sociais e subjetivas entre o eu e o Outro.

A cidade se humaniza, o medo cede lugar à curiosidade por conhecer aquele igual-diferente.

Para começar a apresentar o tema dos Deslocamentos,  pensamos em falar um pouco do lugar estrangeiro na cidade e do estrangeiro na cidade.

Durante o tempo em  que permanecemos como colaboradores  do movimento de luta pela moradia nas ocupações do centro de São Paulo, pudemos observar uma mudança significativa na relação que tínhamos com aquele território, mudança essa que se deve à qualidade das relações afetivas que fomos estabelecendo com os moradores, ao próprio espaço das ocupações e seu entorno, mas também, ao deslocamento que experimentamos do nosso próprio lugar de analista que se questionava o tempo inteiro qual é a escuta possível dentro de uma ocupação.

Se nas primeiras idas ao Cambridge nos sentíamos um pouco deslocados em relação ao território, por vezes com algum temor de circular pelas ruas da região à noite e com certa timidez de estar invadindo a casa das pessoas na ocupação, com o passar do tempo, esse ruído interno foi se dissipando e dando lugar à construção espontânea de um mapa afetivo capaz de criar uma nova relação com aquele espaço.

Depois que o prédio da Nove de Julho foi ocupado também, a ruaÁlvaro de Carvalho tornou-se nosso reduto. Somos capazes de recitar de memória quase todos os lugares dessa rua, além de todas as cenas que vivemos nela.

Passa-se de sentir-se  estrangeiro em uma terra estrangeira dentro de sua própria cidade para ter uma relação de intimidade, ou melhor dizendo, uma relação erótica com o território.

Também fomos testemunhas do nascimento da ocupação Nove deJulho, vimos nascer aquele bebê amassado, meio informe, porém com uma potência de vida tremenda.

No primeiro dia  da ocupação Nove de Julho estava tudo por fazer, tudo meio flutuante. Tinha algo que lembrava o projeto utópico da New Babylon de Constant, a cidade nômade inspirada nos acampamentos da comunidade cigana de Alba que tanto inspirou o arquiteto.

O que vimos foi um espaço sem contornos, sem muitas paredes(ou seria mais apropriado dizer muros) Também era muito forte a presença dos vestígios quase arqueológicos que sugeriam o que teria acontecido ali antes.

A sintonia entre as crianças e o coletivo trans, as Arouchianas, era algo muito interessante de observar, os espíritos mais livres do lugar.

Também se destacava o grupo dos migrantes e refugiados doHaiti, Congo e Angola, cada um falando a sua língua. Em uma posição que oscilava entre a timidez e a desconfiança,  tentavam entender o que significava estar em uma ocupação.

Esse momento informe, que tanto interessa aos psicanalistas, numa nova ocupação, rapidamente cede lugar ao mapeamento e divisão dos espaços.

É muito surpreendente e admirável a prática e a eficiência que as lideranças, coordenadores e os moradores  têm de resgatar o prédio e transformá-lo em uma moradia.

Porém com a divisão dos espaços,  a fluidez desse momento coletivo inicial vai mudando. Começa a se instaurar uma dinâmica onde há um "nós" e um "eles". O grupo do "eles" , inevitavelmente chamado pelos brasileiros de estrangeiros,  passam a ser um elemento incômodo e dissonante dentro da ocupação.

Sim, é verdade que os migrantes, diferente dos brasileiros,  não tem a mesma relação com o solo e  o espaço. Não apenas porque vem de culturas distintas, mas também porque são seres em trânsito, que vem acompanhados das marcas de suas fugas traumáticas, de suas perdas, atravessados por uma experiência de desenraizamento.

Algo do desenraizamento do migrante dialoga com o desenraizamento do morador de ocupação, como se um fosse o espelho do outro.Ambos  experimentam a mesma vulnerabilidade de uma vida precária, sem garantias, mas talvez custe mais ao brasileiro, que ao menos está em sua própria terra, reconhecer isso, por ser demasiadamente ameaçador.

Bem, parece que já entramos no nosso tema.

 Esse evento  surgiu do desejo do nosso coletivo de pensar o deslocamento a partir de diferentes discursos e experiências.  Ë um tema de especial interesse para nós. Por outro lado, também está muito presente na história do Departamento dePsicanálise. Um Departamento fundado por argentinos e brasileiros, por brasileiros filhos de imigrantes, todos atravessados pelo tema do deslocamento.Não apenas pelo fato de sermos psicanalistas, mas também porque a experiência do exílio deixou marcas em muitos de seus membros, em distintas gerações,inclusive nesta que vos fala.

Queremos convidá-los a pensar sobre as vicissitudes do desterro, sobre a errância da língua e sua relação com aquilo que Deleuze e Guattari chamaram de literatura menor.

Também  queremos trabalharas distintas narrativas do êxodo e do exílio, para pensar o lugar da diáspora como produtor de alteridade.

 Por fim, nos interessa estabelecer um intercâmbio com projetos que desenvolvem trabalhos com sujeitos em deslocamento na cidade. Refletir sobre como o trabalho nesses contextos requer um deslocamento do analista.

Organizar esse evento foi realmente como afinar um instrumento.

No início pareceu fácil, sobre tudo porque foi um tema sonhado, desejado, que estava apoiado em nossa experiência subjetiva e nas pesquisas de alguns dos membros da comissão organizadora.

Parece-nos importante dizer publicamente que a  escolha de todos convidados,  comentadores incluídos, teve como critério principal uma aproximação do tema a partir da experiência encarnada. Os temas que serão aqui trabalhados derivam, de forma mais ou menos explícita,  de interesses oriundos de sua própria história.

Porém, em algum momento percebemos que estávamos fazendo uma proposta de evento que conjugava temas, saberes e alteridades múltiplas. Isso exigia de nós uma delicadeza:  a de que os nossos convidados efetivamente ocupassem um lugar de fala, que compartilhassem com o público suas inquietações, seus projetos  e criações e que não fossem escutados exclusivamente desde o lugar de  vítimas atravessadas por acontecimentos históricos traumáticos.

 Agradecemos a Luiza Sigulem por ter nos alertado sobre essa delicadeza.

Sentimos que a própria construção do evento já foi um deslocamento, porque passeamos por paisagens desconhecidas, vivemos a  desterritorialização ao entrar em contato coma obra de artistas e autores que não conhecíamos.

Também é importante explicitar as referências clínica simplícitas ao pensar o evento e o texto que será apresentado na última mesa de amanhã, o qual falará  de uma escuta analítica deslocada: a clínica peripatética de Antonio Lancetti, a clínica migrante do Veredas, a Clínica Pública e a Clínica Aberta.

Gostaria de agradecer aqui a enorme flexibilidade e generosidade do Conselho de Direção do Departamento, e à Christiana Freire, que nos acompanhou de perto nesse processo.

A Claudia Dametta, assistente do Departamento, nossa gratidão por tamanha delicadeza e eficiência.

A verdade é que não sabia como concluir esse texto, porque creio que ainda tenho algo que compartilhar com vocês:

No dia 01 de maio de 2018 a ocupação Paissandu pegou fogo.

Aquela estrutura gigantesca, impossível de não ser notada,foi devorada pelo fogo e veio abaixo em menos de 90 minutos;

Em menos de 90 minutos, seus moradores perderam sua frágil guarida, perderam o pouco que tinham.

No dia 01 de maio de 2018, o edifício que tinha tatuado nos eu corpo Opus 666 morreu, e possivelmente enterrou consigo outros tantos corpos. De casa de gente se transformou em casa de mortos.

Opus 666 é o número da besta, é a marca do demoníaco, da desordem[i].

Mal esperaram que o corpo esfriasse para que aparecessem os verdadeiros demônios.

Os moradores não querem sair de lá. Estarão esperando para velar seus mortos?

Foram acolhidos na casa de Deus, a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

A  estátua da MãePreta, alusão às escravas, amas de leite,  que amamentavam os bebês brancos segue lá,zelando por todos. A realidade não perdoa.

Quando eu senti que o prédio tava tremendo, eu desci correndo. Eu morava no sexto andar, mas parecia que as escadas não acabavam nunca. Eu vi a morte na minha frente.

Nesse meio caminho, eu encontrei uma bebê. Então, eu peguei ela no colo, trouxe aqui pra baixo e entreguei pro policial. Deu 20 minutos, o prédio desabou. Nunca mais vi os pais dela, eu acho que morreram.

Meu nome é Alcides Gomes. Eu sou gari, trabalho varrendo rua. Eu não sei como vai ser meu dia de amanhã, vou acordar e trabalhar, mas o resto não sei.

Hoje to bebendo um pouco pra esse restinho de dia passar devagar porque tá difícil. Perdi tudo.[ii]

Por que não sabemos quem é essa bebê? Por que não sabemos que destino ela teve?Por que não sabemos de seus pais? Por que está demorando tanto para termos notícias dos desaparecidos, saber seus nomes? Por que? Porque?

#QUEM OCUPA NÃO TEM CULPA

ENQUANTO MORAR FOR UM PRIVILÉGIO, OCUPAR É UM DIREITO

[i] Catálogo da exposição Dr.Pacheco - A metrópole do Mal, de Rafael Augustaitiz

[ii] Fala de um morador daocupação Paissandu, publicada na página SP Invisível, no dia 01 de maio de2018.

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Áudio das mesas:

Mesa: Novas histórias

João Junior

Tiago Honório dos Santos Karai

Sara Aljyakin

Edith Derdyk

Mesa: A língua errante e/ou apátrida

Caterina Koltai

Peter Pál Pelbart

Márcio Seligmann

Nelson da Silva Júnior (Coordenador)

Mesa: Narrativas do êxodo e da diáspora

Sybil Safadie Douek

Ayrson Heráclito

Arlene Clemesha

Mesa: Através da cidade

Guilherme Wisnik

Tales Ab'Saber

Soraia Bento / Coletivo Escutando a Cidade

Miriam Debieux

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Fala do Coletivo Escutando a Cidade

Espirais de uma escuta nômade

Trajetos de uma escuta nômade

Percursos de uma escuta nômade

Calvino, em seu livro As cidades invisíveis, afirma que as cidades estão construídas de desejos e temores, portanto, as cidades são como sonhos. As cidades, como os sonhos, expõem um cenário manifesto e outro oculto. Sim, a cidade é uma trama complexa de vias em cruzamento; o inconsciente recalcado; lugar de memória; as relações de poder entreEstado-sujeito-capital. Um inconsciente móvel, elástico, transgeracional, político.

A questão que  norteou a construção dessa fala foi pensar sobre qual clínica fazemos. E, se fazemos clínica. Buscamos  escutar a cidade em seus movimentos e intensidades. Escutar de que lugar?  Escutar o lugar? Como cidadãos? Como psicanalistas? Como militantes? Uma não-clínica desconstruindo o psicanalista do consultório. Uma não clínica que faz clínica? Como buscar o que está latente na  cidade?

Queríamos saber de que forma a psicanálise nos instrumentava nessa escolha. Movidos por um desejo de rua,  nos unimos  em nossas zanzações pela cidade. Passamos então a desconstruir o psicanalista do consultório talvez na experiência de uma não-clínica. Entretanto, ainda estamos movidos pela associação livre e a atenção flutuante na busca de movimentos pulsionais. O território passa a ser lugar de reflexão e elaboração.

No livro Crítica e Clinica, Deleuze fala sobre a diferença entre uma concepção cartográfica e uma concepção arqueológica da psicanálise.Na concepção psicanalítica dá-se importância aos objetos e às pessoas. Na cartográfica o inconsciente lida com trajetos e devires:  "não se trata de busca pela origem, mas de uma avaliação de deslocamentos”.  A distribuição dos afetos constitui um mapa das intensidades.

Em busca de cartografias afetivas fizemos então andanças encarnadas, deixando-nos atravessar pela experiência da cidade. Contra o ensimesmamento das mídias presentes o tempo todo, vivemos o paradoxo de movimentos intensos, presente em núcleos de resistência na periferia e no centro através das artes, da militância e de outros modos de vida. Como se buscássemos a superação da divisão entre estética e ética, entre interpretação do mundo e ação sobre o mundo.

Um dos integrantes do Coletivo escreve:

Julho de 2017, volta na Luz , uma mensagem para oColetivo:

Quando o medo do desconhecido toma agente, existe um muro, uma barreira invisível que se coloca entre o outro e eu.Sorrir, dizer bom dia, olhar olho no olho. Em todas as vezes fiz isso,  acho que resgatei a humanidade que precisa ser retomada nas vias públicas. O medo é um muro invisível. E como é bom baixar o muro, deixa-lo ficar menor. Nos permitirmos mais acenos e contatos.  Essa palavra contato se não tem origem em“com tato”, faço aqui uma associação livre para continuar meu relato. Fui até aEstação da Luz, ao lado da Pinacoteca. Fiquei surpresa ao ver as gírias que oMuseu da Língua queimada colocou pra fora, bem na porta  da estação de trem. Incrível como fez bem ao museu queimar a língua. Estava lá PARTIU, significado: “o mesmo que vamos agora!!!”, em outro cubo expositivo  era SOFRÊNCIA, e sofrência é um sentimento tão antigo, e  que gíria maravilhosa inventaram para atualizá-lo, “ sofrimento, dor de cotovelo”.  E MITAR, igual a “provocar admiração, ser ou fazer algo excepcional, agir como um mito!!!”. Bom, falei da língua pra fora porque sempre achei que o Museu da Língua Portuguesa  era mais um caso de introspecção de um acervo voltado para a cultura, no caso a própria língua, mas que  ironicamente não  dialoga com o lugar onde está. Penso que o incêndio obrigou o Museu a colocar a língua pra fora. É uma outra língua, essa quevem da periferia e vai assimilando palavras e juntando verbos e substantivos num bolo só. Na frente dos cubos com as gírias, estavam duas mulheres, senhoras,prostitutas com certeza. Quis falar com elas, mas não tinha bom dia, nem sorriso e muito menos olho no olho que desse conta de atravessar as fronteiras do muro invisível. Enfim, criei o muro e não dei conta de derrubar barreira nenhuma.

Ilustrações feitas por Karol ao assistir o evento.

Muitas vezes no Cambridge, esse território novo e que recebeu tanta expectativa da nossa parte, nos perguntávamos como nos localizar, que bússola tomar para dar conta de uma experiência que se apresentava como muito pouco "mapeável". E isso que é tão pouco mapeável nos acompanha.  Como entender o que se passa, quando as coisas não se encaixam no que havíamos imaginado, quanto é difícil fixar os acontecimentos, as relações entre as pessoas em algum parâmetro prévio. Ou até mesmo quando elas se encaixam muito mais do que gostaríamos e precisamos então,rever algumas idealizações ( como por exemplo, com uma portaria que obriga a todos a assinar seu nome na entrada. Não parece o que se dá nas portarias dos nossos prédios ?)e o lugar do qual estamos partindo para escutar, enxergar e sentir a vivência de estar em contato com outro coletivo a partir do nosso próprio. E nós também estamos em coletivo e mesmo com a sensação de afinidade,  lidamos com o nosso respectivo microssomo de alteridades que resulta ora em diferença, ora em similitude e que, por essa razão, pode ser pensado como um laboratório para os encontros  e desencontros pela cidade.

Nos últimos cinquenta anos, as relações sociais foram marcadas pela presença crescente da lógica neoliberal, em que o reconhecimento da sociedade como tal passa a ser muito mais guiado pelo imperativo do mercado, enfraquecendo a noção de coletivo. Nós- do escutando a cidade - exercitamos a sustentação da horizontalidade no grupo como uma posição política, fazendo frente a lógica piramidal sustentada pela exclusão do diferente. Lidamos com adiversidade, em que pese, nos custe trabalho no pensar.

 Talvez por esse motivo tenhamos ficados tão animados com a possibilidade de nos aproximar daOcupação Cambridge, reconhecendo no movimento por moradia um pólo de resistência ao processo anti-democrático.

Nessa aproximação percebemos que depositávamos no movimento de moradia uma expectativa diferente do que encontramos. Não por culpa do movimento, mas por que inicialmente desconsiderávamos meandros complexos do seu funcionamento. E foi possível reconhecer em nós, uma tendência em delegar aos grupos políticos a busca por conquistas democráticas.

Há uma frase do arquiteto Ignasi de Solá-Morales que nos ajuda a pensar esse processo todo:  O característico do indivíduo de nosso tempo é a angústia ante aquilo que o salva da angústia, a necessidade de assimilar a negatividade cuja eliminação parece que socialmente constitui o objetivo da atividade política”. Há uma angústia, reação ao excesso de controle, às estruturas de poder: “A presença do poder convida a escapar de sua presença totalizadora: a segurança chama por uma vida de risco, o conforto sedentário chama por nomadismo”.

Vivemos essa contradição agudamente :incomodou-nos o excesso de controle no Cambridge: televisões controlando entradas e saídas, normas muito rígidas, controle da militância de cada morador. Sentimos sede de rua. Hoje, 2 de maio, depois da tragédia no Largo da Paissandu, indagamo-nos o quanto essa ordem salva…  Uma ordem homegeneizante, sem lugar para o estrangeiro, para formas inusitadas de viver a sexualidade. Mas, que salva .Essa luta entre a forma rígida e o informe nos acompanha o tempo todo.

Assistimos o nascimento da Ocupação 9de julho: um prédio abandonado onde  já havia acontecido uma ocupação. Vimos casas nascerem do cimento, crianças brincando, em poucos dias  o informe deu lugar a moradias. Um campo inicial informe torna-se casa.

Outro relato de integrante do grupo:

Dois dias depois de feita a ocupação no antigo edifício do INSS na Av. 9 de julho, fomos dar apoio sem nenhuma idéia do que encontraríamos e o que proporíamos.Encontramos um prédio espetacular,embora degradado, com muitas pessoas indo e voltando concentrados num trabalho alucinante. Homens e mulheres ziguezagueavam arrumando, limpando, consertando e pintando. Foram retirados incontáveis caminhões de entulho. A cozinha era coletiva, dois banheiros foram improvisados e no térreo, as pessoas deitavam seus colchões ladeados por poucos pertences para demarcar pequenos territórios de ocupação dentro da ocupação.

Fomos convidados a fazer algum trabalho com as crianças, que sugeriram uma entrevista filmada. Rapidamente formou-se a nossa volta uma turminha de crianças vivazes.A mais extrovertida candidatou-se a ser a jornalista. Fez do seu celular um microfone e começou o seu trabalho. Iniciou com a amiga que havia estado nesse prédio havia 10 anos e teve que sair por causa dia reintegração de posse. Fomos conhecer sua antiga casa, reconhecida por um papel colado na porta com nomes de seus familiares e um desenho de casinha colorida. Papel desbotado e rasgado que deixava a mostra o que encontraríamos na excursão feita no escuro. A menina postou-se num canto e disse com os braços abertos, - "Aqui era o banheiro, agora está assim!"" Não havia nada além de um cano de esgoto aberto a lembrar que aquilo foi seu banheiro.  Acendemos as lanternas dos celulares para nos guiarem pelas escadas tão avariadas que dava medo subir. As crianças corriam a nos mostrar os espaços. Em algum andar alto, havia uma varanda, linda com certeza em outros tempos, com uma árvore que sobrevivia.Festejamos aquela vida resistente, combinamos um cuidado extra com ela…

Ainda no escuro amenizado pelos feixes de luz de nossos celulares, começamos uma contação de histórias. Havia panos espalhados pelo chão e um garoto buscou um longo pano vermelho e criou uma espécie de parangolé ou se preferirmos, um manto real e saiu dando volteios entre nós.

Aquela experiência marcou a todos profundamente, aquilo que não tinha forma nem parecia ter jeito foi se ajeitando e ganhando forma de casa com a rápida passagem do tempo.

Diferente de nossa burguesice que tem a propriedadeprivada construída no tempo, com planejamento, sonho e inúmeros financiamentos. O sonho que vira realidade é atravessado pela lógica do condomínio, tanto nasocupações como nas classes dominantes. Re-encantamento e desilusão. Desilusãoporque rapidamente surgem questões e os estrangeiros passam a ser  um dos sintomas.  Nessa busca de normas que regulem a vidacoletiva, tenta-se apagar as marcas da diferença que os estrangeiros impõem. Adiferença incomoda e precisa ser enquadrada.

Nosso olhar pode ser de colonizador que vê comoesses movimentos deveriam seguir devires coletivos , esperamos deles algo quenão dispomos. Protegidos nos nossos redutosesperaríamos não ver sinal de burguesia neles.

Das ocupações aos percursos pela cidade, às vezes cada um por si e muitas vezes ancorados num coletivo móvel.  Andanças e percursos de trem atrás de lugares que encantam. Uma ocupação não deixa de ser um reencatamento com um lugar. De certa forma,nossos deslocamentos por lugares da cidade buscam reencantar a experiência dos lugares. Assim é que fomos descobrindo o quanto o teatro reencanta a cidade. Em nosso primeiro encontro, fomos assistir “Na selva da cidade”  que acontecia ocupando um espaço no Sesc Pompéia. O grupo havia ocupado vários espaços pela cidade. Cada ato era experienciado em diferentes lugares. Depois do Sesc, continuaram ocupando mundos inusitados da cidade – encenaram no CEASA, na favela do Morcego, etc.

Depois do Cambridge, reingressamos no teatro, fomos assistir o grupo Estopô Balaio. A peça começava em um trem em direção ao Jardim Romano, extrema periferia de São Paulo – do outro lado do rio já é Guarulhos. São 40 minutos no trem, onde os atores intervêm brincando com os vendedores que vendem balas cor-de-rosa – “sua infância por um real”. Para nós, aquela viagem de trem marcou a presença dos terrains vagues em nossa cidade. Esses espaços  que são terrenos vazios ou abandonados, que podem ser encontrados nas bordas de qualquer metrópole, em antigos bairros industriais, embaixo de viadutos e em regiões da cidade tidas como inseguras.  Da janela do trem, os espaços super-povoados alternavam com os terrenos vazios. Que também existem dentro da cidade.  Solá-Morales  diz que os terrain vague (...) são lugares aparentemente esquecidos, onde parece predominar a memória do passado sobre o presente. São lugares obsoletos nos quais somente certos valores residuais parecem se manter, apesar de sua completa desafeição da atividade da cidade. São lugares externos, estranhos, que ficam fora dos circuitos, das estruturas produtivas.

Difícil ler isso e não pensar nos terrenos vagos como um furo no discurso da cidade, pela descontinuidade que provocam. Permanecem ali como um elemento estrangeiro e disruptivo na paisagem, como testemunha de um acontecimento do qual pouco ou nada sabemos. São jeitos da cidade falar.

No Jardim Romano tem-se a impressão de um imenso terrain vague que foi ocupado e depois devastado por uma enchente destruidora e novamente ocupado. O traumático ganhava possíveis formas ela borativas naquele grupo de teatro que cruzava as ruelas, mostrava fotos, entrava nas casas e, em uma instalação fazia com que vivêssemos o que os moradores viveram depois da enchente. Vamos percebendo que por trás do que a cidade exibe, oculta-se o que ninguém quer ver. Essas zonas fronteiriças são chamadas de "zonas cinzas" . Mas, no Jardim Romano a zona cinza se estabelece pela nuvem cinza e barrenta das águas do rio, pela miséria e desamparo. É o degradado da existência humana em condições limite. Mas que ganha dignidade do teatro e no testemunho. O teatro, como o candomblé tem a capacidade de assentar e encantar o lugar. Dar chão  para quem foi desterrado

Tentando concluir

Estamos experimentando formas de percorrer a cidade há mais de dois anos. O deslocamento faz parte da maneira como vamos experimentando a cidade. O teatro vinculado a rua, as Ocupações , os territórios em conflito, assim como as perambulações sem roteiros fixos, vão afinando esta escuta nômade.

Escuta nômade de uma cidade pulsante, feita de fluxos e intensidades múltiplos. Em toda esquina, do centro ou da periferia, há o não-lugar. Aqueles e aquilo que não são olhados pelo estabelecido.É esse não lugar que devemos visibilizar. Buscar formas de driblar o instituído. Os percursos são zonas erógenas,fendas cavadas em que todos nós buscamos nos apropriar criando códigos singulares. A partir daquilo que nos olha. O olhar é um ato provocado por uma imagem que vem da coisa até nós, sem que essa imagem seja a imagem desta ou daquela coisa visível.  É um clarão,imagem deslumbrante, confusa. É o resplendor intenso de uma luz intermitente de reverberação, dissolvendo o eu imaginário. O olhar sempre surpreende o eu. Algo de inconsciente se põe em andamento. Esse olhar inconsciente é um ato pulsional. Desestabiliza o eu.

Assim, a cidade passa a poder ser lida pulsionalmente.  Citando Deleuze: “O trajeto se confunde não só com a subjetividade dos que percorrem um meio, mas com a subjetividade do próprio meio, uma vez que este se reflete naqueles que o percorrem”. Temos vivido exatamente isso: misturados com a subjetividade dos caminhos que percorremos,vamos entendendo dessa cidade que nossa subjetividade vai produzindo.

Clínica? Talvez, fugaz, às vezes sim às vezes não, flutuante como nossa deriva e nosso modo de escutar a cidade em livre-associação permanente. De qualquer forma, fazer percursos entre tantos mundos talvez possa instaurar algo que contrasta com a amargura odienta que se delinea em um Brasil tão partido.

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