A sombra da sombra


Soraia Bento

Sonho. Casa grande cheia de gente. Da janela avisto no céu, duas imensas naves espaciais, pareciam ser feitas de lego. Uma branca e uma preta. Da navegação paralela algo faz com que comecem a se atacar. Há um bombardeio tão assustador que prenuncia o fim do mundo. Lembra o enredo de Melancolia, do Lars von Trier. Ao meu lado, reconheço duas pessoas, minha dermatologista e uma senhora. A senhora está aflita porque deixou seu filho trancado em casa. Tentamos sair e guardas fecham as portas para evitar a fuga. No braço da senhora começa a nascer um caroço, que cresce vertiginosamente sob a pele até se romper. A protuberância atinge tamanho de uma melancia.  Peço socorro à dermatologista. Ela vê o mesmo fenômeno acontecendo sob sua pele. A senhora é negra. A senhora é uma empregada doméstica de um velho amigo. A dermatologista é branca.

Dias antes….

Era um nublado domingo de agosto, dia de descanso universal, um almoço entre amigos prometia ser o melhor aquecimento para a alma. Uma amiga da juventude viera de Portugal para ministrar um curso numa prestigiada pós-graduação. Militante e pesquisadora das questões que envolvem racismo contra negros, a convidada chega com um aspecto desconcertado. Havia se atrasado o que poderia justificar o olhar perplexo. O prato principal poderia ser o problema, ela não costuma comer carne…a conversa seguiu com um ânimo recuperado, mas uma certa aceleração nos passos que costumam ser lentos e tranquilos num almoço como aquele. Acompanho a convidada até o taxi. Na saída do prédio ela me diz: - “O porteiro me indicou a entrada lateral para entrar…”

Corta. 

Passa pela minha cabeça uma conversa em Lisboa, agora em julho, onde ela conta que, na época da faculdade viveu essa situação chegando à casa de amigas comuns. Naquela ocasião, ela foi marcada pela discriminação de cor pela primeira vez. Fez-se marca onde não havia. Natural de um país africano não havia percebido o que é ser negra em um país racista. Falamos sobre mudanças na cultura brasileira e nos direitos civis que garantiriam a criminalização do racismo hoje e que com a discussão em pauta, pensávamos que as coisas poderiam estar diferentes. Isso não aconteceria mais hoje em dia, com certeza.

Em uma de nossas conversas por mensagem ela recorta uma matéria de um jornal lisboeta que sugere o risco de uma mudança nos lançamentos de imóveis na capital portuguesa. Brasileiros aos montes vão “invadindo” a cidade com seus costumes escravocratas e dinheiro no banco. Precisam de algumas modificações necessárias para acomodar a “brancura” dos seus modos de viver, para isso, entrada de serviço e acomodação para empregados, que não ocupem muito da “área útil”.

Voltando àquela tarde de domingo em agosto…

Depois de me despedir com um imenso constrangimento reencontro o porteiro, um querido senhor, o funcionário mais antigo do prédio, um negro. Sempre penso quão injusto é alguém ainda ter que trabalhar naquela idade. No domingo dia de descanso ele também trabalha. 

Domingo dia de descanso. Velho. Negro. Pobre. Porteiro, aquele ser invisível atrás da cabine blindada. O que fazer? Vou falar sobre o ocorrido e ele visivelmente se atrapalha para se justificar. Sinto dor por ele, por minha amiga e por ter que encarar mais uma das facetas monstruosas de nossa época, na minha casa, no meu mundo, na minha pele …

O que aconteceu aqui? O contínuo processo de destituição de conquistas dos negros pelos brancos acontece em profusão, esse exemplo mostra o quanto a cor negra foi determinante para a “posição de direito” designada à minha amiga acadêmica. Seus títulos foram escondidos atrás da sua cor. O prédio destina entradas discriminadas por cor! Não havia nada que justificasse entrar pela entrada de serviços, que hoje em dia serviria exclusivamente para a recepção de materiais de construção, mudanças e cachorros. 

O ideal da “brancura”, é resultado da dominância na cor branca, que por consequência vê no negro a marca da condição desfavorecida. “A ideologia racial, se funda e se estrutura na condição universal e essencial da brancura como única via possível de acesso ao mundo” (Izildinha B Nogueira, p.123). Negro é pobre e subalterno como eu, pode ter pensado meu querido porteiro. Também trabalha aos domingos, como eu. Seu lugar é pela entrada de serviço… estranho até mesmo para aquela portaria empertigada, uma vez que na cobertura mais bacana mora uma negra com suas filhas.

Esse é o olhar do outro que impregna a retina de um eu tão acostumado a ser visto assim. O porteiro, que é negro, sofreu no seu processo de subjetivação, a construção de uma imagem de si a partir do olhar de um outro que o categoriza. Reproduzirá por identificação com o agressor, a atitude racista. Cito a autora novamente: “Ser sujeito no outro não significa ser o real do próprio corpo, que deve ser negado para que possa ser outro. Mas essa imagem de si, forjada na relação com o outro- e no ideal de brancura- não só não guarda nenhuma semelhança com o real de seu corpo próprio, mas é por este negada, estabelecendo-se aí uma confusão entre real e imaginário” (p. 124). Segue perguntando-se como nesse processo de despersonalização o negro não enlouquece. O resultado “transforma o sujeito num autômato: o sujeito se paralisa e se coloca à mercê da vontade do outro”.  As fantasias vêm de dentro e de fora e mantêm e propagam os pré-conceitos permanentemente.

Coincidências estranhas colocaram no destino da minha semana uma peça sobre porteiros. João Junior, ator/diretor de teatro do grupo Estopô Balaio fizera uma montagem chamada “portar(ia) silêncio” onde dá voz aos silenciados porteiros. Ele imigrante nordestino, por saudade da sua terra, buscou nas histórias dessas personagens a sua própria história. Justa homenagem.

Os porteiros, que na sua imensa maioria são imigrantes também, vêm à capital paulista em busca do sonho de ser alguém. Quer dizer, sonhando ser alguém que tenha coisas e oportunidades, porque são muito mais alguém em seu território de origem do que no anonimato da cidade grande, longe das suas referências. Só que eles só descobrem isso depois.

No desalento da invisibilidade estão à espreita dos movimentos de moradores como guardiões da propriedade e privacidade dos mesmos. Assistem a tudo que acontece e devem ficar imaginando enredos, como quem acompanha uma novela televisiva. Bom recurso para conquistar autoria em meio ao processo de des-subjetivação do uniforme e regras de conduta. A inversão de quem detém a voz permite que falem e contem suas histórias de vida. O porteiro do meu prédio é baiano. E negro.  Sei muito pouco sobre ele…

A minha amiga resignificou o racismo naquele episódio da época da faculdade, acusou o “primeiro” golpe quando viu a reação indignada das amigas. Foi o olhar delas, a sua reação que instalou a certeza da injustiça e do preconceito. Aquilo nunca foi esquecido, e ainda, ficou como lembrança de um tempo instituinte da sua militância. O segundo episódio foi também traumático, porque dessa vez, era um negro a lhe impor seu olhar racista.  A manifestação mais inconcebível. Minha amiga pediu-me que não tratasse a questão individualmente, de forma que recaísse sobre o porteiro, ela sugeriu uma conversa com os condôminos para lembrar que racismo é crime e que, portanto, os procedimentos de entrada no prédio precisam ser revistos.   “Um golpe antigo, em certas circunstâncias, pode golpear ainda mais ainda no presente. A pessoa desprevenida recebe um golpe e fica desnorteada sem saber o que a atingiu, de onde surgiu o ataque, aparentemente sem fonte e sem sentido. Vem, por exemplo, por dentro, como uma angústia. Vem pelo sono, como um pesadelo, e é incrível como, às vezes, o recurso histórico ao passado pode ajudar a interpretar sonhos” (José Moura Gonçalves Filho, p 144).

Esse episódio faz parte da minha história e não será esquecido. Possibilitou-me rever as raízes do preconceito em mim e no meu universo próximo, sei tão pouco sobre meu porteiro…  Sinto gratidão imensa por essa oportunidade, em si dolorida, mas altamente necessária para seguirmos na tarefa de “cortar na carne” essa doença social, portanto, histórica. 

Como psicanalista, escutar com atenção o que é falado e o que é calado faz com que eufemismos do tipo “entrada lateral”, para renomear o que é efetivamente a velha entrada de serviço, sirva para gritar a depreciação e agressividade encrustadas no nosso cotidiano. Enquanto a entrada lateral servir para carregar lixo, coisas e animais na intenção, mas na realidade, discriminar por cor ou condição sócio-econômica, não poderemos nos eximir da responsabilidade com as mudanças micropolíticas que reverberam na nossa alma e na nossa pele. 

Esse sonho é daqueles que mantém meu encantamento com as possibilidades do Insconsciente. Mostrou-me por outro lado, uma faceta angustiada sobre a questão. Não se pode aquietar porque o recalcado retorna, mesmo como problema de pele, ou problema menor, mais superficial.  As direções para as quais ele aponta sobre a experiência encarnada do racismo:  algo tão avassalador que cria o clima de catástrofe que nos envolve todos e a questão epidérmica, mais superficial, de pele que nos faz semelhantes de novo, pareados e não opostos, sujeitos igualmente às forças brutais da violência. Não tem vitoriosos e derrotados. Desejo de quem sonha.


[1]
Nogueira, I B – Cor e Inconsciente em O
racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise/
org. Noemi Moritz
Kon, Cristiane Abud, Maria Lucia da Silva- São Paulo: Perspectiva, 2017
[1]
Gonçalves F.J. M.  – A dominação racista:
passado e presente em O racismo e o negro
no Brasil: questões para a psicanálise/
org. Noemi Moritz Kon, Cristiane
Abud, Maria Lucia da Silva- São Paulo: Perspectiva, 2017

.


Delírios Psicodélicos: Cracolândia, Campos Elíseos e Higienópolis


Paula Janovitch 

A área da antiga rodoviária de São Paulo, no Campos Elíseos, por algumas décadas tornou-se um terreno vago. Ali, naquele vazio rodeado de casarões antigos, tendo a Estação de Trem Sorocabana a frente e a introvertida Sala São Paulo como vizinhas, a extensa área virou um terreno baldio. Para quem passasse por ali, até meses atrás, havia um campo de futebol, onde também era frequente uma outra presença que tomou aquele território, a conhecida Cracolândia. Inúmeros projetos surgiram na imprensa anunciado novas ocupações para o terreno da antiga rodoviária desativada nos anos 80 e depois ocupada por um shopping. Se não me falha a memória, um dos projetos mais recentes seria um complexo cultural da Luz. Frequentes foram as operações para higienizar a área “doente”. Vejam que nos últimos anos a imprensa se aliou ao Estado e reforçou a imagem do território doente. Nesta inversão de pegar a parte pelo todo, Campos Elíseos desapareceu das referencias do lugar, passamos a reconhecer o território como “cidade do crack”, exclusivamente Cracolândia, um lugar extremamente difícil e perigoso. Eliminar a doença, limpar o território, normatizar os espaços vagos é uma articulação recorrente e bem sucedida desta histórica união do Estado com a especulação imobiliária e os meios de comunicação. Depois de anos, aquele terreno vazio, antigo local de partidas e chegadas, a rodoviária de acrílico, o nosso sonho psicodélico, foi preenchido rapidamente por vários prédios sem identidade alguma, poderiam estar em qualquer lugar da cidade. 

Uma outra população de moradores desta utópica “nova Campos Elíseos” vai ocupá-los em breve. A quadra 36, a qual estão sendo expulsas famílias que moram há décadas no bairro de Campos Elíseos, também parece revelar um outro traço bastante interessante desta normatização do espaço. Dentre muitas ações históricas do Estado para valorizar um território, a introdução de um equipamento hospitalar, no caso, o futuro Pérola Byington, é sem dúvida uma maneira de valorizar uma região e eliminar aquilo que sintomaticamente tomou o lugar como uma representação da doença e da fragilidade de sua mobilidade errante, o “fluxo”. Nada melhor do que limpar o lugar da doença construindo um complexo da saúde. 

Impossível não lembrar que o início da ocupação de Higienópolis, há mais de um século, deu-se com equipamentos estratégicos de valorização de um território que no final do século XIX era considerado muito distante do centro. Dentre institutos educacionais como o atual Mackenzie e novos arruamentos, a implantação da Santa Casa da Misericórdia foi fundamental neste plano “feliz de cidade saudável ” para se efetivar o deslocamento da elite paulistana do Campos Elíseos. Sem a presença da Santa Casa, a distante região do Pacaembu, em tupi-guarani “terras alagadas”, nunca se tornaria a nobre cidade da higiene, a glamorosa Higienópolis. 

Boa viagem a todos!!!!

 Para saber mais: 

São Paulo Antiga - Terminal Rodoviário da Luz- (http://www.saopauloantiga.com.br/o-terminal-rodoviario-da-luz-em-16-fotos-coloridas/) No site da São Paulo Antiga, um interessante post recupera imagens da antiga rodoviária da Luz. Neste texto ficamos sabendo que o projeto da Rodoviária num primeiro momento foi pensando para ser no Parque da Luz. Outro dado interessante  é que as pastilhas coloridas internas  da nossa rodoviária psicodélica da Luz, podem ser vistos ainda hoje na fachada do Jornal Folha de São Paulo. Otávio Frias  foi um dos construtores da  antiga rodoviária.

Descontruíndo a Luz- (http://internacional.estadao.com.br/blogs/olhar-sobre-o-mundo/desconstruindo-a-luz/) matéria publicada no Estado de São Paulo na época da demolição da rodoviária. O ensaio fotográfico da desconstrução é maravilhoso. Não poderia deixar de compartilhar com vocês. 

Fórum Aberto Mundaréu Luz (https://www.facebook.com/ForumMundareuDaLuz/)  em defesa da permanência dos moradores no Campos Elísios. O Fórum elaborou um projeto de habitação para o Campos Elíseos, assim como equipamentos para o entorno, onde permanecem os moradores e se preservam os imóveis antigos da região. Vale a pena conhecer melhor o Fórum. Foi ele o responsável pela procissão que começou no Teatro do Faroeste, em que os atores, vestidos de branco e com extintores, higienizavam em tom de paródia  toda a região em risco  com água perfumada. 

Peça em cartaz Epidemia Prata da Cia. Mungunzá :(http://www.ciamungunza.com.br/epidemia-prata) A peça Epidemia Prata aborda a relação do Teatro Mugunzá instalado na rua dos Gusmões com o lugar e seus habitantes. A peça segue em cartaz no mês de Julho. Imperdível. 


A ESCUTA DO FORA E A ESCUTA DO DENTRO


Miriam Chnaiderman

Era uma tarde ensolarada, novembro. Muito calor. Eu, no meu consultório, ia vivendo meu lugar de psicanalista, confortavelmente instalada em minha poltrona atrás do tradicional divã. 

Os consultórios de psicanalistas parecem montados para darem uma idéia de atemporalidade. Lembro sempre do consultório de Freud, com os tapetes persas e os objetos antigos, arqueológicos, trazidos de viagens aos confins europeus. No seu caso clínico, “O homem dos ratos”, Freud aponta seus objetos arqueológicos para exemplificar a atemporalidade do inconsciente.   Em meu consultório, também minhas lembranças, não tão arqueológicas ou antigas… Artesanato brasileiro, bonecas de pano, meus livros amontoados na mesa, meus quadros. Uma certa bagunça de um dia a dia de leitura e escrita e escuta. Lembro que quando iniciei minha primeira análise, início da década de 70, eu ainda estudante, havia psicanalistas que achavam ter quadros nas paredes do consultório uma heresia. Era preciso que ao analista propiciasse ao paciente uma tela branca para suas projeções. Assim, a roupa deveria ser a mais discreta possível, o analista deveria manter sempre uma aparência discreta e estável. As interferências externas deveriam ser as mínimas necessárias. Lembro de uma conversa que tive com uma psicanalista hoje didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise, onde ouvi que não havia qualquer interesse no quanto um paciente ganharia para pensar no preço de uma sessão, pois o que interessaria seria o mundo interno. Como se o mundo interno fosse uma entidade essencial ao qual nós, psicanalistas, devêssemos aceder. 

As paredes daquele meu consultório foram construídas para vedarem qualquer passagem de som. É como se, ao adentrar aquela sala, um silêncio invadisse o ambiente para que o inconsciente pudesse aflorar sem qualquer interferência do mundo. 

Entrar naquela sala, saindo do burburinho da rua e da caminhada que faço para chegar, era sempre algo que me centrava. Aguçava minha escuta, me recolocava sempre em meu lugar. 

Naquele dia de meio da semana, eu ia seguindo minha rotina, recebendo meus analisandos. É de uma riqueza única esse contato tão íntimo e especial com cada um. Meu encantamento é imenso.

Sempre que abro a porta , no final da sessão, naquele consultório eu podia enxergar os prédios de Higienópolis, ver o céu, sentir o movimento na rua. Mas, as janelas do consultório, dão para a piscina de um desses prédios chiques.  Muitas vezes o ruídos de crianças brincando ao final da tarde invadiu sessões. Aí, eu fechava a janela. 

Os sinos da igreja em frente eram o único ruído que eu não tinha como silenciar. Era o bimbalhar tão raro em nossos dias, lembrando igrejas medievais. Mesmo nesse momento, a sensação era de atemporalidade. Um rasgo nesse mundo eletrônico. Um rasgo que levava os pacientes a silenciarem, respeitosamente,  e esperar que o um minuto em que o sino tocava passasse. Sempre perto do meio-dia e perto das 18:00. 

O sino já havia tocado, era meio da tarde. Abri a porta da sala de espera, e L. entrou. 

Seus quarenta e poucos anos se faziam mostrar nos fios brancos de um cabelo preso em um rabo-de cavalo. Cuidados. Aparados. Camiseta e jeans. 

L senta no divã. Não deita. Vem de um internamento de dois meses.

Vou escutando sua fala. Sua fala sobre esse limite tão tênue  , entre a vida e a morte.

Subitamente,  um estouro na rua. A rua existe? Eu continuo presa à fala da L.  É uma fala sofrida, de alguém tateando no mundo do trabalho, no mundo ordinário.

Depois do estouro, que parece bombinha da São João  - mas estamos em outubro, as festas juninas já terminaram…  – sirenes soam.  A correria na rua, o ruído de passos apressados invade aquela sala sagrada.  Fico em silêncio, atenta às palavras de L.

Começo a ser tomada por uma angústia. Uma angústia que não tem a ver com o que L. vai me falando. Não se trata de identificação projetiva – não são as angústias de L. que eu estou vivendo. Nem as minhas. É algo que brota da janela, e que vem da rua.  Sirenes ressoam janela adentro. Faço um imenso esforço para escutar L.  

Lembro de  quando fui trás de um psicanalista recém chegado d Londres para iniciar uma nova análise.  Enfrentei uma São Paulo caótica,  com greve dos transportes públicos. Era uma primeira entrevista e eu consegui chegar com trinta minutos de atraso. E tive que ouvir que o congestionamento era interno. 

Mas, agora, com L. , , um helicóptero parece adentrar a sala. Falo ou não a L. do que está ocorrendo? Mas, o que está ocorrendo? Não tenho como falar em ruídos internos.  

Fico atenta para captar na fala da L.  qualquer indício dessa invasão atroz, aguda, dolorida,  que ocorria naquela sala atemporal.  

Lembrei de um momento da minha primeira análise:  era a Copa de Futebol , o Brasil jogava. Minha sessão começava durante o segundo tempo do jogo. Vou, a contragosto , à minha sessão. O Brasil ganha. O consultório de meu primeiro analista, naquele momento, era em pleno coração paulista.  Quando o Brasil ganha, os fogos pipocaram. Em seguida, uma batucada maravilhosa invadiu aquela sala.  Uma batucada onde nossas vozes só podiam silenciar. A uma certa altura, nós dois concluímos que seria impossível realizar a sessão.  Naquele momento, eu, aos 20 anos ser chamada de senhora,  comparecer àquela sessão cinco vezes por semana, encontrar um analista sempre com a mesma cara, nada disso valeu…  O mundo nos invadiu e tivemos que nos curvar a ele. 

Naquela minha sala onde as paredes são vedadas, a realidade se fez mais forte do que o isopor colocado no cimento das paredes.

Houve um momento em que os helicópteros – que pareciam se multiplicar absurdamente – pareciam sobrevoar nossas cabeças.  E L. continuava sua fala, como se nada houvesse. Afinal, as invasões e catástrofes internas eram tão monumentais que aquilo que invadia a sala ficava minúsculo.

Mas, o ruído dos helicópteros só aumentava. E sirenes soavam de todos os lados. Ruído de passos na rua.  E L. continuava falando. 

L. acabara de sair de um internamento.  Um internamento conturbado. Com episódios duros onde a morte beirou seu cotidiano. O que, aliás, caracterizava seu dia a dia desde a adolescência.  Escolhi não falar do burburinho de fora. Dura escolha.

Depois que l. se foi, passados  os cinquenta minutos usuais, eu desci até a portaria para saber o que havia acontecido. Os helicópteros ainda sobrevoavam a região, mas o ruído era cada vez mais esparso. Soube então que na esquina, um assaltante fora  baleado e jazia na calçada. Havia roubado um celular de alguém dentro de um desses carrões importados. Para azar seu, esse alguém era um investigador policial. Assim que entregou o celular, saiu do carro com um revólver, deixou o carro ir ladeira abaixo até esbarrar no muro de um shopping center próximo, e alvejou o assaltante.  Que morreu instantaneamente.  O corpo jazia na calçada, bem na ladeira próxima ao meu consultório e do lado da padaria que frequento.  Foram muitas horas até a perícia chegar. 

Fiquei com vontade de parar de respirar.  Afinal, aquele ar estava contaminado de uma morte injusta. Uma dor me cortou. Como é possível uma morte assim? Matar à queima-roupa, sem mais nem menos. Os comentários eram terríveis… era apenas um ladrão, não era um pai de família.  O assassino virou herói. E saiu impune. Pelos noticiários fiquei sabendo que o que movia no assalto era um imenso desespero…. morreu um fugitivo da prisão… 

Aquele corpo estendido na calçada , tão próximo ao meu consultório, permaneceu durante meses me impedindo de fazer o percurso que levava até minha casa.  Aquele corpo ainda está lá.  

Tentando refletir 

Esse episódio faz refletir sobre o que é o trabalho dentro de um consultório e o que é que fazemos quando saímos pelas ruas, buscando escutar a cidade. Parece que mesmo quando estamos protegidos pelas quatro paredes de nossos consultórios a cidade se faz presente. 

Lembrei do lindo texto de Katerina Malichin,  “De língua a língua na linguagem, e então a assunção da fala”. ( Souza Jr. Paulo Sérgio, org, ; A psicanálise e os lestes, SP, Anablume, 2017).  Malichin é grega e atende refugiados sírios. Com a ajuda de intérpretes, oferece sua escuta.  Parece que é isso que podemos fazer.  E não é pouco. 

Antes do relato de dois casos clínicos, Malichin nos expõe seu complexo referencial teórico. Assim inicia seu ensaio: “Somos falentes (parletres), como nos chama Lacan. Durante a nossa incorporação, recorremos ao corpo sem corpo da linguagem – à qual estamos subordinados, nem todos com o mesmo sucesso – a fim de que ele nos conceda um corpo. Não importa se esse corpo está vivo ou morto. ” (p. 15.7) Conta que Lacan falou em “significantização”, demonstrando de que forma “o significante encontra um apoio em objetos materiais por transformação, elevação.”(p. 158) O efeito do significante seria a perda do gozo que jamais será restaurado. Mas, até mesmo a linguagem “é regida por uma dimensão gozoza (…) já que cada falente investe a linguagem libidinalmente.” (p. 159) E, importante conclusão: “linguagem e corpo cooperam, visto que o corpo torna-se o âmbito em que os significantes se instalam.”(p. 159)

A seguir, Malichin nos fala, a partir da constatação de que o significante não basta porque há o real, vai nos falar da “corporificação” , que é o contrário da significantização

É “o significante que entra no corpo”. (p. 159)

Quando, em uma sessão dentro de um consultório com isolamento de som, a realidade invade, vivemos uma explosão da significantização e vivemos a corporificação. A linguagem deixa de dar conta. 

Malichin vai traçando paralelos entre a linguística e a psicanálise , uma vez que para ambas é a linguagem que está em questão. Mas, para a psicanálise são as línguas individuais que interessam . Malichin pensa a sessão analítica como um dispositivo que transforma o inconsciente , “onde não há linguagem”, em linguagem. Citando, “obriga o mecanismo psíquico a transformar-se em mecanismo de linguagem”. P. 163)

Lendo esse texto, pude entender porque não falei a L. sobre os ruídos de violência que assolavam a rua. L. vivia uma imensa dificuldade no processo de significantização. Drogava-se muito, buscava situações- limite, driblava a morte em seu cotidiano.  Naquele momento de tanta invasão de uma realidade bruta, eu escolhi me aferrar à linguagem, que, naquele contexto era lutar pela vida. 

Malichin tem como questão o trabalho psicanalítico com pacientes que têm uma língua materna outra, diferente daquela em que a análise acontece. Conta de sua experiência com refugiados , quando tem que recorrer a um intérprete na sua oferta de escuta.  Conta como nessa oferta de um olhar que humaniza, busca os significante no corpo. Para ela, o intérprete é figura fundamental nesse trabalho, pois “oferece a morada da língua materna para que o sujeito-refugiado possa ali habitar  de novo….”(p. 171)

Fiquei pensando o quanto aqueles ruídos de sirene e helicópteros não teriam tido o papel de intérpretes da realidade de L.  Estar naquela sala falando para mim, em meio a ruídos que assustam tanto,  funcionou como uma possibilidade de encontrar guarida para tanta violência  na linguagem que buscávamos fabricar em nosso encontro.


Um grupo de crianças na noite de SP



Luiza Sigulem

Na quarta feira, dia 30 de maio, Anya (12), Sara (11), Anita (3), Rebeca (6) e Haiany (8) saíram do prédio em que moram na rua Conselheiro Carrão exatamente às 18:25. Andaram apressadamente os 100 metros que as separavam de seu destino, o bar e restaurante Al Janiah e entraram pela porta, subindo as escadas apressadamente, exatamente uma hora antes do horário marcado para o começo do grupo. Estavam ansiosas para voltar às atividades, rever os coordenadores e as outras crianças. Desde que tiveram que ficar um mês fora da ocupação em que residem com seus familiares e outros moradores, elas não haviam mais participado do grupo. Após o incêndio da ocupação do Paissandú que deixou oito vítimas e inúmeras famílias  desabrigadas, seguiu-se uma forte pressão por parte da prefeitura em relação aos movimentos de moradia e muitos prédios tiveram que ser desocupados, dentre eles o das meninas. Porém, após um mês de incertezas e três tentativas de reocupar o imóvel, finalmente as famílias conseguiram voltar para lá, favorecidas por um final de semana de menor policiamento, fruto da paralisação dos caminhoneiros.  


O grupo acabou começando mais cedo, apenas com as seis meninas e os relatos se iniciaram marcados pelo alívio de terem conseguido voltar para casa, permeados pela incerteza sobre o paradeiro de outras crianças e famílias que acabaram se dispersando durante esse período. Quando as pessoas saíram do prédio, cada uma foi para onde podia, a maioria para outras ocupações e algumas acabaram sem comunicação. Ninguém até agora sabia o paradeiro dos irmãos Nicolas, Grazi e Stephanie, participantes ativos do grupo e que estavam sumidos desde o fatídico dia da desocupação. Outro ponto levantado foi a raiva de ter encontrado o prédio completamente diferente da limpeza e organização habituais. Lixo, sujeira, coisas quebradas. No meio do relato, alguém levanta a hipótese te terem sido os seguranças. -Segurança nada, foi a polícia mesmo. Retruca uma das meninas. 


Quarta Feira dos amigos, Grupo do Falafel, Cineminha, Al Janiah Mirim, Kids (pronunciado com sotaque árabe), são todos nomes possíveis do grupo de crianças que acontece todas as Quarta-Feiras na parte de cima do Al Janiah. Cada criança do grupo acabou apelidando de um jeito e os funcionários do espaço também vão inventando formas de se referir ao projeto. A verdade é que o grupo/experimento coordenado por Camila Issa e Rafael Domenes, ainda não tem um nome oficial, ou melhor, possui todos os nomes e nenhum, indicando seu caráter múltiplo e aberto.  


Formado em agosto de 2017, o projeto tem como proposta principal trabalhar o tema da imigração com crianças de variadas idades. Nos últimos dez anos o número de imigrantes e refugiados no Brasil dobrou de tamanho e São Paulo é um dos principais destinos desse contingente. Apesar de ser tradicionalmente local de acolhida de pessoas vindas de fora, o contexto atual é singular, marcado por uma crise global e inúmeras guerras. A dificuldade de imigrar para a Europa, destino privilegiado, fez com que o Brasil tenha se tornado uma opção. 


O próprio Bar e Restaurante Al Janiah reflete esse momento. Criado em 2016, no contexto da vinda de refugiados palestinos da Síria, os primeiros a trabalharem ali, se estabeleceu como restaurante de comida árabe mas também como espaço de cultura. Atualmente possui no quadro de funcionários: 12 palestinos, 2 sírios, 3 cubanos, um Congolês, um Argelino e vários Brasileiros e recebe semanalmente atividades musicais organizadas por pessoas de fora e pessoas daqui. 


Camila e Rafael, relatam que os primeiros encontros, apesar de algumas crianças serem elas mesmas filhas de imigrantes e refugiados, foram marcados pela grande curiosidade em relação aos estrangeiros. O restaurante comporta entre funcionários e clientes, pessoas de todos os cantos, línguas diversas e um cardápio de comidas árabes que a maioria das crianças nunca havia experimentado. “ A comida sempre traz as conversas mais importantes do grupo: O que é isso? Da onde vem? A minha mãe cozinha algo parecido….Quando as crianças provaram o falafel, bolinho de grão de bico típico da Palestina, a maioria cuspiu, agora é o prato predileto. A primeira conversa sobre imigração nasceu da batata com zaatar, que virou o orégano árabe, já o pão saj virou pizza.” 


As brincadeiras também são parte fundamental do processo possibilitando mediações e aproximações à diferentes contextos históricos e geográficos. Os funcionários do espaço são convidados de tempos em tempos à apresentar uma brincadeira de seu país de origem para o grupo. A primeira foi a das “7 pedras”, que Hassan Issa costumava brincar na sua infância em um campo de refugiados Palestinos na Síria. Era bem diferente e demorou para as crianças entenderem. Já a brincadeira do “Prisioneiro” apresentada por Mohhamed Leksir e popular entre as crianças da Argélia, foi comparada com a nossa “Queimada” e caiu no gosto de todos.  


A constituição do grupo é ela mesma heterogênea, além das crianças da ocupação, fazem parte as crianças da Alecrim, escola de classe média da Zona Oeste de São Paulo. Os dois grupos foram se entrosando pouco à pouco e muitas perguntas que eram tabu no início puderam começar a serem elaboradas. “ Principalmente as crianças da Alecrim, tinham vergonha de perguntar coisas sobre a vida das crianças na ocupação. O grupo é muito marcado por uma questão de classes, têm crianças que têm duas casas e outras que não tem nenhuma, foi importante poder nomear esse conflito.” Diz Camila. 


Com o tempo, os integrantes se abriram cada vez mais para essas diferenças internas ao grupo e  foram trazendo relatos que diziam respeito as suas próprias histórias e origens. Nessa pesquisa, uma das meninas descobriu que era Boliviana. Seus pais sempre lhe haviam dito que ela nascera “no meio do caminho” da Bolívia para o Brasil, de onde eles imigraram, mas nunca tinha se dado conta de que entre lá e cá, esse meio do caminho, ainda poderia ser a Bolívia. Mesmo as crianças Brasileiras foram cada vez mais se dando conta de questões identitárias. Passaram a se perguntar o que é ser Brasileiro e a levantar dúvidas sobre xenofobia, racismo e questões de gênero. 


O tema do deslocamento passou então a habitar o grupo, não apenas à partir de do que parece distante mas também através do que está próximo. Na época em que ocorreu o incêndio do Paissandú, tanto as crianças da ocupação quanto as crianças da Alecrim ficaram bastante tocadas com a tragédia e o tema da desigualdade de moradia se impôs como algo urgente a ser tratado. Os coordenadores entraram em contato com um outro projeto com crianças que acontece numa ocupação em pinheiros e as crianças do grupo começaram a se corresponder com elas por cartas. Dentre as perguntas, as mais recorrentes foram tentativas de aproximação: Qual a sua cor preferida? Como é a sua ocupação? Qual a sua idade? Qual o seu time de futebol? E também a vontade de se conhecerem pessoalmente: Vocês vêm nos visitar, ou vamos nós na sua ocupação? Além disso se construiu uma rede de solidariedade, as crianças a de lá que já haviam passado por alguns processos de integração de posse, mandaram muitas frases de incentivo dizendo que estavam torcendo por elas e preocupadas. 


No final do grupo, o bar já vai enchendo de clientes, as meninas vão embora juntas a pé, as crianças do Alecrim esperam os pais que vão leva-las para casa. Camila e Rafael se sentam para conversar comigo enquanto experimentamos o falafel do novo Chef Palestino.  Os dois ficaram apreensivos no último mês e estão aliviados com a volta das crianças para o prédio. Sabem que é da natureza do próprio trabalho que desenvolvem, se haverem com vulnerabilidades e incertezas. Mas no primeiro gole de cerveja, o celular apita e logo uma boa notícia: É a Grazi, ela e seus irmãos estão bem, ficaram na casa do pai no último mês, mas já estão voltando para a ocupação e para o grupo na semana que vem.    


Um adolescente no território


Pedro Robles

Nos últimos anos me dediquei a escutar o sofrimento na adolescência com
especial atenção, o que me convocou a reunir referenciais teóricos afim
de construir um território de partida. Nas e entre as linhas seguintes tentarei expor
a direção que caminho.

A história do sofrimento psíquico é escrita pelas mudanças nos laços sociais. Nos últimos cinquenta anos,
as relações foram marcadas pela presença crescente da lógica neoliberal, onde o
reconhecimento da sociedade como tal passa a ser muito mais guiado pelo
imperativo do mercado, enfraquecendo a noção de coletivo que entre outras
transformações, ecoam sobre as subjetividades.

As novas formas de composições familiares, as novas interações sociais possibilitadas
pelo campo virtual, como também o fortalecimento dos movimentos identitários,
entre outros, possibilitaram questionar estereótipos e desconstruir padrões. Processo
que intensificou relações mais fluídas, menos estáticas e menos binárias, que
por sua vez tem efeitos na construção das subjetividades, principalmente na
adolescência. Em plena transformação, num período entre a infância e o mundo
adulto, o adolescente agora precisa compor seu vocabulário a partir de múltiplas
ofertas fornecidas pelos novos tipos de relações.

É neste processo em que o sujeito se vê cada vez mais só, com pouca
sustentação coletiva que crescem as perturbações contemporâneas.

O universo virtual é um importante fator neste processo, ao passo que ganha
espaço sobre o real, mudando as relações. Não há um outro ali que singularize a
experiência com ele e os saberes ficam delegados a lógica  google
que fornece respostas prontas, inibindo o processo de construção do saber a
partir da experiência vivida. A virtualidade suprime o tempo e a distância,
elementos importantes no processo do sujeito, que navega solitário e deriva no
oceano de estímulos esvaziados de sentidos. A complexidade implícita das
relações humanas, a polissemia, a relação com a espera e o lidar com as
frustrações são achatados pelo ambiente virtual e sem estas experiências, o
sujeito se vê desamparado.

Na clínica com adolescentes, além das particularidades do universo de
cada sujeito, são recorrentes as questões entorno do desânimo profundo,
sensação de deslocamento, aspectos de solidão e desamparo. Os sofrimentos parecem
estar ligados a falta de perspectivas do campo social onde não há uma
sustentação do coletivo. Parecem sujeitos num vagar errante e sob névoa rumo ao
mundo adulto.

Fragmento

Há dois anos, me ligou aflita a mãe do Caio, 13, por ver o filho não
conseguir ir à escola há seis meses. Ele apresentava situações de forte
ansiedade a caminho da escola  fazendo com que  retornasse para casa. Ou tampouco
conseguia sair da cama.

A mãe me pedia para acompanhá-lo no trajeto da escola e mesmo eu reconhecendo
a questão escolar como a ponta de um iceberg, topei iniciar o trabalho dessa
forma. Anteriormente, Caio havia tentado outros processos de análise no
consultório, mas permanecer no ambiente restrito e falando de suas dores era
algo insuportável. Fazia pensar que algo antes precisava ser construído para que
ele pudesse chegar ao consultório.

As tentativas de ir à escola falharam, somando mais frustrações.  E, juntamente com os pais foi decidido que tentaríamos novamente apenas no ano seguinte. Agora, sem a obrigação de retornar a escola, vagamos pela cidade rumo a algo que desconhecíamos.  Caminhamos quilômetros acompanhados dos assuntos habitados pelo o que a cidade apresentava e por questões que Caio trazia, anunciando seu grande desânimo e solidão.

Com o passar do tempo, começamos a fotografar os trajetos e Caio passou
a construir, por meio das fotos, uma narrativa própria que mais tarde expressou na
cena pública pelos lambe-lambes que fixamos nos muros da cidade. Durante o processo
assisti um garoto se fortalecendo, que mesmo com dificuldade, voltou a
frequentar as aulas no início do ano seguinte. Esse trajeto foi bastante
sinuoso e irregular, mas hoje pode ser seguido através
das palavras no consultório.

Em meio a tudo isso, ocupar as ruas, fazer delas o espaço de projetos com
adolescentes, parece ser um caminho possível de trabalho. Cruzando a cidade, um
território é conquistado. No encontro com o outro é tecida a noção de coletivo.
Assim como, as diversidades e as complexidades das relações são apresentadas na
experiência, que quando vividas com o outro, podem representar aquilo que
atinge o corpo. O espaço público possibilita ao sujeito encontrar elementos
simbólicos do mundo, inventando e construindo o seu território nele.


A CIDADE FALA


Alessandra Sapoznik

Esse pequeno texto é uma tentativa de avançar na compreensão da
atividade de escuta da cidade que o nosso coletivo vem se propondo a
realizar. Barthes[i]afirma que a cidade é um discurso, e esse discurso é verdadeiramente uma
linguagem: a cidade fala aos seus habitantes, nós falamos à nossa cidade, a
cidade onde nós nos encontramos simplesmente quando a habitamos, percorremos,  olhamos.

Se aceitamos a proposição de Barthes, a ação de Escutar a Cidade é reveladora
de duas suposições: a primeira é que ao afirmamos que realizamos uma escuta da
cidade, estamos supondo que a cidade é um ente, um organismo vivo. E a segunda
é que esse organismo vivo é dotado de uma capacidade de expressão, que a cidade
é capaz de conversar com seus habitantes. Ou de que seus habitantes são capazes
de se expressar através dela.

Como?

Através de seus muros, através dessa espécie de corpo tatuado que
recebe inúmeras inscrições, que apesar de sua transitoriedade, insistem em
lançar perguntas e provocações aos seus habitantes.

O uso das paredes da cidade como espaços de manifestação se conforma
como estratégia política subterrânea, de cunho popular, para dar conta de uma
urgência de comunicar, e de comunicar a muitos. Aquilo que não pode ser
escutado, pelo incômodo que pode despertar, extravasa nos muros da cidade.

Se os muros da cidade se afirmam por sua presença narrativa, existem
outras forma da cidade falar, onde o que parece predominar é o vazio.

Nosso olhar se dirige à esses terrenos vazios ou abandonados, que nos
foram apresentados pelo cinema e pela fotografia, e que podem ser encontrados
nas bordas de qualquer metrópole, em antigos bairros industriais, embaixo de
viadutos e em regiões da cidade tidas como inseguras.

Se nos lançamos em um exercício de associação livre, o que podemos
associar com o terrain vague?

Em sua raiz latina, vague remete a vago, livre e também à
oscilante, impreciso.

Temos aqui um paradoxo: um terreno é um pedaço de terra, fixo,
delimitado por algum contorno, algum limite, porém ao mesmo tempo ele é
oscilante, desocupado, móvel.

A sua mobilidade reside justamente no fato dele ser uma espécie de
corpo estranho no contexto de uma região ou de um bairro, uma espécie de lugar sem
lugar. E ele é também portador de um enigma para aqueles que escutam a cidade:
o que terá acontecido aqui, antes do abandono, antes que sua estrutura virasse
ruína, antes que o que restam de suas paredes virasse suporte para o pixo e
antes que a grama invadisse o concreto?

Em um belíssimo texto, o arquiteto Solà- Morales[ii]
escreve que os terrain vague (…) são lugares aparentemente
esquecidos, onde parece predominar a memória do passado sobre o presente. São
lugares obsoletos nos quais somente certos valores residuais parecem se manter,
apesar de sua completa desafeição da atividade da cidade. São, em definitivo,
lugares externos, estranhos, que ficam fora dos circuitos, das estruturas
produtivas.

O autor mantém uma posição crítica em relação ao papel do urbanismo e
da arquitetura, que para ele seria (…) o da colonização dos espaços, o por limites,
ordem, forma. A  arquitetura seria então
um instrumento de organização, de racionalização, de eficácia produtiva capaz e
de transformar o inculto em cultivado, o baldio em produtivo, o vazio em
edificado.

Difícil ler isso e não pensar nos terrenos vagos como um furo no
discurso da cidade, pela descontinuidade que provocam. Permanecem ali como um
elemento estrangeiro e disruptivo na paisagem, como testemunha de um
acontecimento que não sabemos muito bem como se deu.

Curiosamente esses espaços abandonados, que do ponto de vista
urbanístico estão mortos, pela ausência de funcionalidade, continuam emanando
uma força de atração e de evocação poética tremendas, como retratou Tarkovski
em Stalker.

De onde virá sua força?

Justamente dessa característica informe e flutuante, da possibilidade
de permanecerem como territórios não domesticados, que se lidos do ponto de
vista psicanalítico, poderiam ser entendidos como manifestações do processo primário
e portanto portadores de uma força pulsional bruta, essa mesma força que é a
fonte que alimenta as formações do inconsciente.

Na nossa escuta da cidade, nos interessam os indícios, os fragmentos,
os territórios “menores”, para brincar com o termo literatura menor,
de Deleuze e Guattari[iii].

Menor não se refere ao tamanho, ou à importância, e sim ao elemento de
desterritorialização. Ou seja,  interessa
deixarmo-nos levar por territórios nômades, deslocados, onde possamos entrar em
contato com a estranheza e a diferença que habita na cidade. E por quê?

Porque esses lugares onde se sente a presença do unheimlich na
cidade são também lugares de resistência, habitados por sujeitos em
deslocamento, por pessoas ou grupos que justamente por estar à margem da cadeia
produtiva são capazes de criar novas configurações de vida, que apesar de
precárias e oscilantes como os terrenos vagos, parecem ter algo a nos ensinar
sobre como viver em um solo instável.


[i] BARTHES, R. (1985) La aventura semiologica. Trad.R. Alcalde.Barcelona: Paidós,
1993.


[ii] SOLÀ-MORALES,I. (2002) Territorios. Barcelona: Gustavo Gilli, 2002.


[iii] DELEUZE,G. , GUATTARI, F. (1975) Kafka. Por uma literatura menor. São Paulo: Autêntica Editora, 2014.


Escutando a cidade: A sombra e o brilho daquele chão molhado



Soraia Bento

Pensamos um tanto sobre a possível deselegância do gerúndio
no nome do nosso coletivo. Pensamos em contrapartida, que seria uma forma de
garantir a ideia de algo em permanente construção, como única certeza. Um
presente se esticando para os dois lados: o futuro e o passado contidos na
ação. Esse coletivo se organiza em torno do prazeroso ato de perambular
prestando atenção àquilo que passa despercebido no olhar de quem tem pressa de
chegar. Não queremos passar, queremos passagens.

Fazemos percursos físicos, imaginários, literários e outras
possibilidades que não caberiam nesse breve escrito. São verdadeiras jornadas
inclusivas não só da aparente diversidade, mas também do que vive à sombra. O
que nos guia é uma posição psicanalítica, estética e política frente aos de
modos de viver que vamos encontrando.

A pergunta que me norteia nos percursos é O que pode me
dizer isso aqui?
Estou lá, in loco, tentando pôr palavra minha no
que vejo/escuto/toco, ou seja, tentando atribuir significado a partir da
“atenção flutuante”.

A cidade é uma trama complexa de vias em cruzamento; o
inconsciente recalcado na arquitetura; lugar de memória; as relações de poder
entre Estado-sujeito-capital;  é também
composta pela micropolítica de resistência em formato artístico ou militante;
minha casa, sua casa seja lá onde e como for; fileiras e fileiras de latas e
latões com rodas e soltando fumaça; lugar de encontros e desencontros, parques
habitados, lugares vazios … ajuntamento de pessoas e a rua. Especialmente a
rua, porque é o espaço do trânsito, do ir e vir; o espaço intermediário que
liga as coisas às gentes.

Num certo dia, caminhando pelo meu bairro vi um homem
conversando com uma mulher, algo comum, entretanto nesse caso, aquilo não
parecia nada banal. O homem estava vestido com muita simplicidade e aparentava
ser de um universo distinto do dela…ele caminhava cheio de gestos e a moça
ouvia, mas não interagia. Ao chegarmos na esquina a dupla  separou-se sem nenhum aceno, sem nenhuma
palavra de adeus ou algo assim, só seguiram seus nortes. Enquanto percorro meu
caminho ele, na minha frente,  vira-se e
sem nenhum preâmbulo continua a falar, talvez do ponto em que havia parado no
anterior encontro.  Falava sobre justiça
e honestidade, Deus, criação do filho que começa a vida com o resultado do seu
trabalho e grande esforço. Havia orgulho de si, uma desconfiança sobre a
capacidade do filho se acertar na vida, já que o ponto de partida era de algum
privilégio. Não era uma fala desorganizada nem louca e havia  ali uma oportunidade de diálogo. Lembrava
algo de conversa entre passageiros e taxistas, o percurso definindo o tempo do
assunto. Ou quem sabe o tempo de uma sessão de análise bem curtinha. Assim, seguimos
caminhando e falando… Ele também me ouvia. Brevemente chegamos a uma outra
partida, porque percebi que ele não se despede, apenas segue falando. Essa cena
representa um aspecto daquilo que chamamos “escutar a cidade”.

O que nos conduz pode ser a beleza ou seu avesso. Fizemos
percursos  deliciosos, engraçados, mal
planejados que tinham tudo para dar errado e permitiram descobertas
maravilhosas. Como o dia em que fomos, desavisados, visitar um lugar hostil e acabamos
conhecendo uma ótima pessoa que nos “ciceroneou” de forma segura. Fizemos
também alguns percursos que tinham a dor dos despossuídos e o desencanto como
motivo. Lembro um domingo, a prefeitura de São Paulo, sob gestão do Dória,
promover o que considerou “operação de zeladoria e limpeza da cidade”. Retirou
moradores e seus pertences. Essa ação levou alguém a provocar um incêndio na área inferior do Viaduto Julio Mesquita Filho, que destruiu tudo
que lá havia. Fiquei consternada e fui tentar escutar as pessoas que ainda
permaneceram, dessa vez fui só… O conceito de limpeza urbana que encontrei era
na verdade, um destrato com a vida humana, com a desigualdade através de uma
cruel categorização de sujeitos que, a depender do seu endereço, podem ter ou
não valor. Esconder e espalhar as pessoas e seus objetos é a maneira de dizer
que podem ser tratados como coisas. Essa política repetiu-se de forma ainda
mais brutal no fluxo, também região central, conhecida e estigmatizada pelo
nome “Cracolândia”.

O que vi foi algo terrificante; um piso molhado e uns poucos
resistentes começando a reconstruir suas casas. Era julho, fazia bastante frio.
Que coisa difícil, aquele espaço vazio, antes habitado por famílias com suas
casas que já não eram tão improvisadas, agora reluzia com o brilho que o
aspecto molhado cria. Alguns grupos e a trupe do Teatro Oficina corriam para lá
e para cá carregando doações  que
chegavam para amenizar aquela perda. Sim, havia amor e solidariedade na cidade
gelada pelo inverno e pelos maus-tratos. Não consegui parar para conversar
muito, apenas vaguei por aquelas colunas que sustentam o concreto do viaduto.
Experiência sensorial que me deixou sem palavras.

O brilho do piso ficou impregnado na minha retina…

Brilho, luz, sombra são substantivos que remetem obviamente
à luminosidade, mas que guardam relação com ideia, consciente/inconsciente,
humor, elucidação ou o contrário, visibilidade…Tanizaki, no cultuado ensaio “Em
louvor da sombra”, estabelece um dualismo entre o ocidente moderno “iluminado”
e o oriente antigo sombreado. Com fina ironia ele fala do prejuízo para a
beleza e harmonia a presença da luz constante no mundo moderno. A luz que
ofusca, que mostra demais, que enfeia até a mais bela criatura. Como comparar à
delicadeza daquilo que fica insinuado pela sombra, presença marcante do oriente
antigo? Cito: “ A beleza inexiste na própria matéria, ela é apenas um jogo de
sombras e de claro-escuro surgido entre matérias. Da mesma maneira que uma gema
fosforescente brilha no escuro mas perde o encanto quando exposta à luz solar,
creio que a beleza inexiste sem a sombra.”

A beleza e feiura do piso molhado que impregnou minha
retina…

Se a beleza inexiste sem a sombra, a cidade não pode
desconsiderar o seu aspecto sombrio, perverso, de memória difícil.

No início de 2017 aconteceu uma exposição da artista Gisele
Beiguelman no Arquivo Histórico de São Paulo, chamada Memórias da Amnésia.
Nessa mostra, a artista propôs uma reflexão sobre a “história invisível de
uma cidade”, através dos monumentos nômades. O que ela fez foi, literalmente,
derrubar os monumentos , “desmonumentalizar” no sentido de retirá-los da
inocente contemplação. O público encontra então, heróis deitados. Interessante
esse jeito Macunaíma de ser o anti-herói. Com as perguntas “O que você esqueceu
de lembrar?” e o “O que você lembrou de esquecer?”, ela aponta para o
recalcado, o  inconsciente da cidade.

Com nossa vocação para escutadores-perambuladores seguimos
essa experiência de deriva, que nas palavras de Francesco Careri: “é um termo
duplo , uma palavra que carrega consigo a ideia surrealista do acaso e do
navegar ao sabor das correntezas, como um veleiro que se move sem vento e sem
mapa…”

Tanizaki, Junichiro- Em louvor da sombra, São Paulo:
Penguin Classics Companhia das Letras, 2017

Careri, Francesco- Caminhar e Parar, São Paulo,
Gustavo Gili, 2017

Foto: Peu Robles


Dois dias pelos caminhos do Ó

Paula Janovitch

* Este post é resultado de duas caminhadas que fiz junto
com Gilberto Tomé, Livia Gabbai, Paula Gabbai e Renato Hofer. Gilberto,
artista gráfico, ganhou incentivo do Proac para fazer este lindo projeto
de percursos e um livro de artista. Entendo que Tomé fez muito mais do
que isso. Sensibilizou pessoas para olharem um caminho antigo ameaçado
pelas radicais transformações que estão acontecendo ali. Colocou seus
moradores diante da beleza da história da antiga estrada e do caminho de
seus ancestrais. E, finalmente, abriu uma exposição no próprio Caminho
do Ó, Praça das Porteiras ( Praça da Árvore). Segue um pequeno relato
afetivo destas duas caminhadas.

 Ontem conversei com a Lívia, que já
esta produzindo um filme das caminhadas que fizemos. Achei interessante a
nossa conversa. De formas diversas cada um de nós vai desenvolvendo
diálogos com o percurso, que também chamo de lugar. Um lugar para mim é
algo habitado por gente, por traçados, por histórias e por quem
percorre. O lugar se revela como Descobrimento no sentido próprio mesmo:
um achamento. Reparei que a caminhada em si é uma ação deste achamento.
E muito mais intenso se faz quando somos estimulados a ver, sentir e
perceber o que permanece do passado no presente e aquilo que é
radicalmente novo. Caminhar é uma troca de olhares que se aprimoram no
 espaço e no cruzamento de vistas.

Filme de Livia Gabbai apresentado na abertura da Exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida.,

Cena do filme na Marginal do Tietê.

 Filme de Livia Gabbai apresentado na abertura da Exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida. Ao fundo, Jeff Keese. Cena do filme na Marginal do Tietê.

 No meu primeiro percurso para a Freguesia do Ó
desobedecemos o caminho principal, a avenida Santa Marina. Nos perdemos
pelas pequenas travessas e pontilhões dos trilhos do trem armados de
mapas antigos. Fizemos achados maravilhosos, um riacho escondido numa
vila, uma grupo de ruas que é um poema de Paulo Bomfim, Tempo Reverso. E casas, residências pequenas, antigas ainda, mas com portões novos, com estruturas flutuantes  para acomodar um novo 
 morador, o carro. Com certeza é o antigo se adaptando ao novo, o tal puxadinho que virou garagem. 

Na segunda caminhada, o Tomé trouxe várias folhas coloridas com
impressões fotográficas antigas e distribuiu para o grupo. Começamos no
início da Santa Marina, que é ali na Pompéia. A Dna. Neide ao andar pelo
antigo Caminho do Ó ( Av. Santa Marina), conseguiu lembrar mais coisas
dos seus percursos dos outros tempos por aquela avenida. O escadão e
antes dele, a porteira do trem,” era muito mais fácil do que agora”, o
local onde pegava o bonde, a relação com o rio Tietê, as distâncias,
tudo era mais perto. 

Fotografia
tirada sobre o escadão. Primeiro obstáculo da Avenida Sta. Marina. Dna.
Neide subindo o escadão que passa pela linha do trem e lá embaixo, na
rua, Renato Hofer desenhando. 2017

 Depois a moça da galeria de arte, a Luana, ouviu um
barulho de rio, ali invisível, de dentro destes tampões da Sabesp,
gravou. Ainda paramos no primeiro ponto de vista, na Praça das Porteiras
( antiga referência da Praça da Árvore) , antes da cancela do trem. E
as pessoas maravilhadas conseguiram ver dali a Igreja da Freguesia do Ó,
lá do outro lado do rio Tietê
. Fez todo sentido. 

 Atravessar a linha do trem e passar para o outro lado
da avenida é o segundo obstáculo para penetrar e refazer o antigo
Caminho do Ó. 

O Instituto Rogacionista é a primeira parada que atrai os olhares
e o desejo de percorrer por dentro algo do passado. Na extensão da
avenida e seus novos usos, aquele casarão antigo chama atenção. Seus
jardins, as carpas, a tranquilidade, o que um casarão de chácara esta
fazendo ali? Parece que o tempo deixou um marco de outros tempos, de
outras histórias, ponto de reflexão numa avenida que passou rapidamente
do campo para a produção fabril
.  

No jardim uma moça desenhou um peixe.  Lembrei da Virginia Woolf no livro Um teto todo seu tentando
agarrar um peixinho/idéia que passava naquela universidade imaginária,
“Oxbridge” ( mistura de Oxford com Cambridge). Ela pescou uma carpa
linda ali na antiga  Chácara/ Instituto  Rogacionista
!!! 

Saindo de lá, a Vidraria Santa Marina domina a quadra do outro
lado da rua, mas nos fins de semana é mais um dragão de boca fechada;
dormem os fornos, as chaminés?  descansam os homens. 

 Paula Gabbai desenhando em placa de metal no escadão.

 O barulho vem do Clube Santa Marina, seu vizinho anexo.
Criado e mantido por seus antigos funcionários. É o fiel Santa Marina
Atlético Clube com uniforme que tem as cores da bandeira francesa. Ali
se produzem outros sons: apitos do juiz , gritos de felicidade, o
barulho da borracha de tênis  em atrito com o piso de cimento da quadra
do futebol de salão. É gente pequena e grande que enche de vida o lugar.
Andar pelo clube é percorrer histórias, monumentos e bustos misturados a
pura convivência dos clubes de várzea nos fins de semana. Que não morra
o Santa Marina Atlético Clube, fábrica de barulhos de felicidade da
Avenida Santa Marinex!!!! 

 Saímos do clube e o movimento do trânsito assume a trilha sonora do lugar. Nosso
terceiro obstáculo é passar pela Av. Ermano Marchetti e chegar na
última quadra da Santa Marina, do lado de cá do rio Tietê. Jogo duro
para o pedestre. A longa travessia diz muito do lugar. Talvez seja por
isso, e não por nostalgia dos velhos tempos, que Dna. Neide lembra que
antigamente o Caminho do Ó era mais fácil para caminhar. Parece que nada
ali é feito para os pés, mas somente para carros. Nada ali é de parar e
olhar, e é por isso que estamos fazendo o Caminho do Ó. Queremos buscar
ainda os fios rompidos pelo progresso. Queremos dar chance para o tempo
lembrar do lugar através dos nossos pés. 

Cruzamento da Av. Santa Marina com a Av. Ermano Marchetti.

 Ali do cruzamento da Ermano Marchetti, os olhos que nos
mostraram ao longe a Igreja da Freguesia do Ó, apenas nos alertam para
prestar atenção ao cruzar a avenida. Neste obstáculo não há chance
alguma de ver nada além dos sinais e os jogos dos corpos humanos
sincronizados com a velocidade dos carros. Atravessar a Ermano Marchetti
é o que importa! E assim cruzamos o grande rio de concreto. Mas, ao
virarmos antes da ultima travessa que chega na Marginal do Tietê,
encontramos novamente a Igreja da Freguesia Ó, bem na cara da Marginal.
Deste ponto alguém viu o nome de um rio que desemboca ali no Tietê.
Outra pessoa falou que os rios não chegavam no Tietê antigamente. O Tomé
mostrou outra imagem em papel colorido do lugar, uma canoa dos velhos
tempos, e onde estávamos, bem na água, na várzea do rio. 

Pegamos a calçada da Marginal à direita em direção a Ponte da
Freguesia do Ó. Como é difícil andar ao lado da Marginal. O barulho dos
carros, a velocidade deixa a gente com medo. Acho que vou dizer que a
Marginal é nosso quarto obstáculo. 

Atravessamos uma alça para chegar na ponte. Do outro lado
descobrimos um negócio de gás, com cheiro de gás. Na Ponte do Ó, a
mocinha das carpas mostrou uma intervenção de um grafiteiro. O melhor de
caminhar com os outros é que os olhos de um ensinam os olhos do outro.
Atravessamos e teve gente com medo da ponte. Nela só tem um caminho
estreito para os pedestres. De um lado o rio não se mostra muito
convidativo, do outro, os carros passam como uma motosserra que corta
árvores sem parar. A gente se sente muito frágil ao atravessar uma ponte
tão “des-humana”. 

 Lá de cima lembro da outra ponte, a antiga, aquela de
madeira que juntava as duas partes da Avenida Santa Marina. Aquela era
baixa, de madeira, própria para os animais e homens. Estranho ver uma
rua que acaba no rio e começa novamente do outro lado. Fica faltando uma
coisa que junte o caminho. Vamos desenhar, vamos ligar os pontos
?! 

Ponte da Av. Santa Marina ligando os dois lados, Caminho antigo do Ó. SARA Brasil, 1933

 Do outro lado, os canteiros minados de gás continuam no
entorno da nova ponte da Freguesia que funciona 24 horas como
motosserra cortando árvores. Dá medo ainda. Faz a gente pensar que não
só os carros que passam deixam o pedestre meio perdido, mas estas
granadas de postes amarelos espalhados a esmo no capim verde são
impróprios para o caminhante. Talvez seja isso que Dna. Neide quis dizer
ao falar que antigamente era mais fácil o caminho…

É domingo e deste outro lado da Freguesia do Ó o comércio esta
todo fechado. Aqui não dormem os homens, só seus afazeres. Então vamos
subindo. Leio uma placa e ela indica que estamos numa travessa da rua da
Balsa. Fico feliz de encontrar com a rua exatamente no lugar que
margeava o rio. Abro um dos mapas do nossa coleção do Tempo Reverso e
vejo a rua desenhadinha no final do século XIX. O rio Tietê serpenteando
também esta lá, bem diferente do que é hoje, retinho. De repente dou
risada sozinha. Percebo que a rua inventava curvas para dar com o rio e o
rio flertava com ela também. Um rio brincalhão, sem limites ou margens
fixas, desalinhado, e uma rua safada, pública, que queria a todo custo
encostar no rio, só podia ser uma rua da Balsa!!! 

 Agora vamos subir. A Igreja esta bem pertinho. Mas a
ladeira é íngreme. No caminho ganhamos altura. Caixas de correspondência
mostram que quanto mais pra cima, mais gente mora ali. E mais a gente
consegue olhar o rio e ver da onde partimos. Ai é que surge um outro
obstáculo, um monte de prédios, os tais paredões de concreto que se
armam como empenas cegas diante dos nossos olhos. Tem lugar que não
adianta ganhar altura, porque as paredes são maiores do que os homens,
mais altas até do que a torre das antigas igrejas. Quem diria que
chegaria um dia em que os olhos de Deus não poderiam mais enxergar a
cidade e muito menos o caminho dos homens. 

 Chegamos na Igreja da Freguesia, bem no dia da entrega
dos mastros. E sem querer eu vejo anjos de asas vermelhas e escuto
cânticos. E percebo que nosso esforço de caminhantes não é solitário, o
lugar nos recebe com seus antigos barulhos. A Freguesia é solidária com
seu passado. Os anjos de asas vermelhas ainda querem ver o céu e tudo
que a vista alcança entoando cânticos em ÓÓÓÓ!!!!!
 

 Mais sobre este post:

  • Para quem quiser conhecer o livro de arte produzido por Gilberto
    Tomé e as demais atividades vinculadas a exposição, veja o link com
    orientações detalhadas de como chegar no local, dias e horários: Ó: Caminho, Estrada, Avenida
  • O filme de Livia Gabbai produzido para este evento, Linhas e Passagens: traçados da av. Santa Marina avistam a matriz,  esta sendo exibido no local da exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida.

O cavaleiro medieval e a fuligem da cidade grande: ainda posso sonhar

Miriam Chnaiderman

Sonhando a cidade

“Revestido de armadura dourada, segurando escudo e longa
espada, o cavaleiro medieval entra num prédio da av. Paulista. O porteiro lhe pergunta
aonde vai assim armado. Ele responde que está em São Paulo, não é daqui e tem
que se defender. Sobe então, ao 22.o andar e entra numa sala onde muitas
pessoas assistem a um filme. Avança contra um homem e uma mulher e os
esquarteja com sua espada. Os outros presentes, indignados, se unem e o atacam,
cada um empunhando seu lápis, como se fosse espada. Encurralado, o cavaleiro
dourado se atira pela janela, sente-se caindo e, finalmente, se esborracha em
sua cama”. E acorda.

Esse sonho foi coletado pelos pesquisadores que trabalharam
com José de Souza Martins em pesquisa sobre a expressão da cidade no trabalho
onírico.[1]

O cavaleiro medieval explica, ao pesquisador, que o lugar do
combate é o mesmo onde trabalha. Para o sonhador, não se tratava de um pesadelo:
comenta que todo mundo tem um cemitério particular na cabeça onde mata as
pessoas de quem sente raiva. As pessoas que matou no sonho trabalham com ele e
no dia anterior, no mesmo cenário em que se deu o sonho, haviam-no desafiado
publicamente durante uma conferência. O cavaleiro medieval se sentia um herói
libertador e isso podia ter a ver com sua própria atitude de tentar libertar
suas idéias e provar às pessoas que sua teoria estava certa.  Essa teoria que desenvolvera deveria
beneficiar àqueles que o ouviam, no entanto foi atacado. Ele estava
fantasiando, o que associa com a imaginação infantil, “coisa de criança”. 

Desfigurado/transfigurado esse homem de classe média e do
trabalho se liberta em sonho da coação representada pelas objeções dos colegas
e superiores e, finalmente, na escuridão da noite e na solidão da cama dá
combate a seus inimigos.

Para os pesquisadores, o sonho do cavaleiro andante do
asfalto revela uma cidade que é cenário de inimigos anônimos, de confrontos
mortais, tanto nas ruas e locais de trabalho quanto no interior da própria
consciência.Seu imaginário onírico faz a crítica da cidade adversa e do
trabalho opressivo.

José de Souza Martins gosta de citar Henri Lefebvre. Lembra
que é um pensador que se volta para as temporalidades que convivem numa
sociedade e as contradições a elas inerentes. De tal forma que uma
temporalidade é a negação da outra e aquilo que a revela, na medida em que
denuncia a parcialização do aparente, no qual o presente aparece eternizado e
naturalizado de forma a não ser questionado.O sonho sempre questionaria esse
presente eternizado. Embaralha temporalidades fixas.

No sonho  relatado, a
relação dialética entre temporalidades emerge de forma explícita: um cavaleiro
medieval em conflito com pessoas no alto de um edifício da Avenida Paulista –
ícone da modernidade de uma das maiores metrópoles da América Latina.

Segundo a interpretação tanto do orientador quanto dos
estudantes pesquisadores, os sonhos recolhidos constituem uma surpreendente
revelação da historicidade tolhida e mutilada que cada um vivencia todos os
dias e todas as noites. Não só expressam o nosso desencontro com o mundo que
juntos criamos e que se nega a cada um de nós. Mas também denunciam para nós
mesmos essa mutilação, esse cerceamento, esse estranhamento. Os sonhos
constituem o espelho que revela os embates que nos desfiguram e mostram,
portanto o que efetivamente somos, a nossa alienação.

José de Sousa Martins quer fazer uma sociologia do sonho.
Para ele o imaginário  do habitante da
metrópole não é um acervo de fantasias. É antes a realidade pelo avesso.A
dessocialização dos sonhos abriria um abismo entre a crítica social e a
realidade social que os contem.

Nessa abordagem, se no sonho o desencontro e a alienação se
revelam ( e se encobrem) como mal-estar, é no mal-estar que o sonho nos indica
que, apesar dele, ainda sonhamos e que o sonho não acabou.

A “coisa”  vista

Essa tessitura entre o mundo que nos cerca e o singular em
cada um, se explicita no trabalho do sonho. Christopher Bollas faz uma leitura
da cidade como alma. Kaës propõe o sonho partilhado. Essa trama entre o
percebido, a marca, o vestígio e esse desconhecido em nós, é objeto de nosso
trabalho.

Citando Pontalis,  em A força de atração[2]:  “….sabemos que só tratamos com restos,
vestígios, fragmentos. Mas, os vestígios, aqueles de que são feitos a nossa
memória e a nossa história, nós só o descobrimos, perscrutamos e seguimos
porque eles vêm de algum lugar desconhecido e deles esperamos que nos conduzam
a algum lugar, que  nunca será
definitivamente isso, mas terá a ver com isso. Este encontro arrisca-se a ser
apenas o comércio com uma sombra enquanto o objeto não se aparentar com a
“coisa vista”.Então, quando reconhecemos nele essa ascendência, ele deixa de
ser um simples sinal, de outro sinal de 
outro sinal… deixa de ser transferência sem fim.”

O que é esse objeto que se aparenta
com a coisa vista? Visão, olhar…. Objeto interno, objeto externo… É difícil
definir a realidade na psicanálise.Não sabemos de seu conteúdo, pois os
parâmetros do que Derrida definiu como metafísica ocidental devem ser
abandonados: deixa de haver uma distinção claro entre sujeito e objeto, entre
mundo interno e realidade objetiva. Uma nova epistemologia se instaura. É
preciso abandonar a oposição entre uma realidade psíquica de textura
fantasmática incosciente e ou realidade exterior, impessoal.

O ser humano viajando no mundo da grande massa de pedra

Os monumentos são, para Christopher
Bollas grandes massas de pedra. Assim afirma em seu texto “ A arquitetura e o
inconsciente”[3]. Aliás,
nesse seu ensaio, sua primeira observação é de 
que Freud usou a imagem de uma cidade como metáfora do inconsciente.
Cita “O mal estar na civilização” onde Freud afirmou que “na vida mental nada
que tenha uma vez sido criado pode perecer”. Sugere que se quiséssemos imaginar
o inconsciente poderíamos fazê-lo visualizando Roma, imaginando todos seus
períodos ao mesmo tempo. Mas, Freud abandona a metáfora pois vai se dando conta
que construções podem ser demolidas, a cidade deixa de ser a metáfora adequada
para aquilo que fica preservado atemporalmente no inconsciente.

O fato é que, toda cidade envolve importantes questões
simbólicas sobre a vida e a morte. Demolir uma construção é instaurar , também,
a possibilidade do novo. Afirma Bollas: “construir é uma forma de oração”. Toda
obra traz a questão do futuro. Os monumentos são formas da morte entre os
vivos, formas da morte em vida.  Eles
permitem “movimentos para o dentro e fora da zona de morte”. Em Perder de
vista  [4]Pontalis
afirma: “Por que sonhamos, a não ser, a cada noite, para ver o desaparecido
(mundo, lugares, pessoas, restos) confirmar sua permanência e tentar unir o
efêmero ao eterno?… Há, efetivamente, qualquer coisa de morto nas noites sem
sonho do insone que não vê mais do que sua solidão infinita até o momento em
que se filtra um pouco da luz da aurora, salvadora, ainda que seja lívida” (p.
205).  Os sonhos e os monumentos de uma
cidade teriam a mesma relação com a vida e a morte. Através dos sonhos, o que
já acabou, persiste, Os monumentos sobrevivem aos trabalhadores que os
ergueram, sobrevivem aos idealizadores. Indaga-se Bollas se a arquitetura teria
como tarefa trazer a morte para a vida. Fazer o que está morto viver.Unir o
efêmero ao eterno, como afirmou Pontalis em relação ao sonho.

Bollas refere-se aos monumentos como objetos evocativos. Cita
Kevin Lynch: “ Um ambiente característico e legível nãso somente oferece
segurança como também eleva a profundidade potencial e a intensidade da experiência
humana”. Lembra GastonBachelard que em sua Poética do Espaço  defendeu uma topoanálise :  “ o estudo sistemático dos lugares
relacionados a nossas vidas íntimas”.

A partir de Winnicotto, Bollas pensa as cidades como
“preesenteando seus habitantes com nobos objetos e novo espaço de
planificação”. Ora, uma das tarefas maternas seria apresentar objetos para seus
filhos. Toda a circulação do bebê é feita a partir do self da mãe e de seus
objetos substitutos.. Então,  população.
Ou seja, cidades são processos bastante inconscientes.

Aí, Bollas faz uma curiosa observação: “…quando caminhamos
ou dirigimos através de nossas cidades, acabamos conhecendo relativamentepouco,
se podemos dizer que conhecemos algo, sobre a grande maior das construções”
(…)  estão lá, como uma espécie de
consciência muda, uma voz silenciada, 
quem sabe evidência no cotidiano da morte da voz do construído”. Faz
então a analogia com um passeio pelo campo, onde apreciamos flores e árvores sem
saber seus nomes e sem conseguir identificar as várias espécies. Lembra então a
teoria freudiana da repressão que sugere que o nome de um objeto acaba gerando
uma rede maior de significados pessoais, pois os nomes distinguem objetos e se
enredam de forma bastante inteligente, com outros nomes das experiências de
vida. Afirma: “Se soubéssemos todos os nomes das diferentes árvores da
floresta, assim que víssemos uma bétula, um loureiro…. estaríamos imersos
numa sinfonia de fonemas que estariam em consonância com a ordem visual”.  Indaga-se: Por que ficamos mudos quando se
trata de nomear estes objetos visuais? Talvez pelo significado inconsciente que
damos a uma forma valorizada.  Conclui:
as estruturas construídas, sobre as quais nada sabemos, são feitas para
permanecer como objetos visuais silenciosos. Faz a importante conjetura:
“Talvez escohamos ignorar a nomenclarura dos objetos porque somos mais tocados
pela sua forma. “ Talvez haja aqui um compromisso entre o mundo natural e o
mundo construído pelo homem. É como se quiséssemos, em nossos passeios,
comungar com uma forma em si. Os nomes (que não sabemos) derivam da ordem
patriarcal que nomeia os objetos. Em nossos passeios, escolhemos viver na ordem
visual e não na ordem verbal. (“é uma errância num mundo pré-verbal, organizado
por visões, sons, cheiros e afinidades”). As construções silenciosas, a ordem
materna vai se perdendo com o envelhecimento. Passamos a nomear e  a sermos seres falantes.

“Os devaneios do
caminhante solitário”

É este o título do lindo livro de J. J. Rousseau , escrito
entre 1776 e 1778. Assim começa o segundo capítulo: “ Tendo portanto formado o
projeto de descrever o estado habitual de minha Alma na mais estranha situação
em que possa jamais encontrar-se um mortal não vi nenhuma maneira mais simples
e mais segura de executar essa empresa do que a de manter um registro fiel de
minhas caminhadas solitárias e devaneios que a preenchem, quando deixo minha
cabeça inteiramente livre e minhas ideias seguirem sua inclinação sem
resistência e sem embaraços”[5]. 

A tradutora dessa edição, Fúlvia Maria Luiza Moretto, busca a
etimologia do termo “devanear”. Cita Cândido Figueiredo que toma do latim
devanum como “meditar, pensar vagamente em: - O,agonar, dizer coisas sem nexo –
absorver-se em vagas meditações.  Depois
cita Aurélio Buarque de Hollanda: “vanus como pensar em coisas vãs; - Imaginar,
fantasiar, sonhar; - Pensar meditar vagamente; - Cuidar, pensar.” A tradutora
remete ao sentido primitivo de rever “um vagar um vagabundear”.(pag. 12)  Observa que Rousseau somente devaneia ao
caminhar.

Em todo o livro, podemos observar um profundo mergulho do eu
para dentro de si mesmo, e para dentro do não-eu, tendo estes movimentos
expressões na natureza e nos percursos que Rousseau vai fazendo.

diferentes campos, estudar as relações entre o homem e o
universo. Mas, somente em 1797 Schelling elaborou a filosofia romântica da
natureza: a fusão do Eu e do não-Eu que se realiza no Absoluto.  Para a autora, Rousseau seria um precursor do
romantismo: “Rousseau transforma o homem que contempla a natureza; Este homem
não a descreve mas está profundamente ligado a ela” (p. 13). Rousseau teria
reunido racionalidade e irracionalidade, ao recompor a unidade fundamental do
homem.

O devanear parece estar intimamente relacionado com a quebra
da ordem patriarcal. Encontro com aquilo que nos funda, imersão e fusão em um
mundo sem sujeito separado do objeto. Perambulação infinda em mundos
esfumaçados.

Contemporâneo de Rousseau, William Blake escreveu o poema The
Mental traveller – “O viajante mental”, onde a analogia entre plantar em um
jardim e a fusão com a mulher é figurada na imagem do lavrador – “expressão
metafórica da relação estabelecida entre o protagonista e a mulher”, segunda
Maria Leonor Telles em seu texto “Os jardins de Blake” [6]Conforme
citação sua e provavelmente, tradução sua:

“Ele quebra então os seus grilhões

E prende-a para seu deleite.

Implanta-se nos nervos dela,

Como o lavrador planta a terra;

E dela faz sua habitação

E jardim 70 vezes fértil”.

Fusão com a mãe mulher, a terra do texto de Freud “Os três
cofrezinhos”, a mulher que dá à luz, a mulher amante, a mulher/ terra que
acolhe o corpo. A partir da análise da peça o “Rei Lear”  Freud aí vê como figurados os  três vínculos com a mulher que para o homem
são inevitáveis: a paridora, a companheira e a destruidora. Ou três formas em
que se transforma a imagem da mãe no decorrer da vida: a própria mãe, a amada
que ele escolhe à imagem e semelhança daquela e, por último, a Mãe Terra, que
volta a recolhê-lo em seu seio.

No perambular, a fusão com a Mãe Terra. No flanar e no
devanear, o reencontro com o que antecede Édipo, puro Outro informe.

Devaneio, sonho, viagem

Décio Gurfinkel, no seu livro Sonhar,
Dormir e Psicanalisar: viagens ao informe[7]
 vai comparar a figura do andarilho
ao do sonhador.Mergulha então na experiência do “andar pela cidade”. Várias
viagens então aconteceriam nessa experiência. .Caminhar seria “abrir-se para a
fantasia e o devaneio” (p. 179). Flávio C. Ferraz tentou diferenciar entre o
“louco de rua”  e o andarilho[8] :
o andarilho não teria raízes em nenhuma cidade, seria totalmente nômade. Cita
Manoel de Barros, “ autor fascinado por esse modo de vida sem parada” (p. 113):

“Quem anda no trilho é trem de ferro

Sou águqa que corre entre pedras;

- liberdade caça jeito.

Procuro com meu rios os passsarinhos

Eu falo desmendado.”

Para Manoel de Barros, apud Ferraz,
“o andarilho é um antipiqueteiro por vocação. Ninguém o embuçala. Não tem nome
nem relógio.”

Décio Gurfinkel vai nos lembrar que
Freud em O poeta e a fantasia (1907b) fala do devaneio como a caminhada
de um órfão em direção ao seu benfeitor. Relembra também que Abraham (1910)
comparou os “estados de sonho” aos movimentos corporais vigorosos” do caminhar
nas ruas. O sonho  e o caminhar pelas
ruas, a viagem seria a metáfora que abangeria o andarilho e o sonhador?

Décio Gurfinkel 
compara o sonho à viagem: “O sujeito que vai dormir arruma sua mala
guardando nela os ‘vestígios do dia’ (…) deixa para trás objetos, lugares e pontos
de referência que proporcionam o conforto da familiaridade. E, após o
adormecimento, finalmente aporta em um não-lugar”. (p. 137)Tanto Décio quanto
João A.  Frayze-Pereira no prefácio ao
livro do Nomi M. Kon, A viagem[9]
referem-se a um lindo texto de Sérgio Cardoso[10],
onde é desenvolvida a diferença entre o olhar e a visão: “entre o ver e o olhar
é a própria visão do mundo que se transforma”. 

De fato, ver é diferente de olhar. O
olhar “não descansa sobre a paisagem”, afirma Sérgio Cardoso (p. 349). Quem vê
é o eu. Entre o eu e o mundo, estende-se uma única dimensão. O eu está na
imagem que percebe.O olhar é ação pulsional, o olhar é objeto da pulsão.. É no
campo global da visão, formado de imagens, que emerge o olhar. O olhar é um ato
provocado por uma imagem que vem da coisa até nós, sem que essa imagem seja a
imagem desta ou daquela coisa visível, O olhar sempre surpreende o eu. Algo de
inconsciente se põe em andamento. Esse olhar inconsciente é um ato pulsional.
Desestabiliza o eu. Sérgio Cardoso cita Merleau-Ponty, para quem o”o visível
enreda em si o vidente por apresentar-se como abertura e passagem, por só fazer
sentido como linha de força, penetrado portanto de lacuna e interrogação”. (p.
349) Décio Gurfinkel surpreende-se com Sérgio Cardoso colocar em lados opostos
o sonho e a viagem. Para Cardoso é preciso não ignorar a descontinuidade e
abertura temporal do mundo do olhar com a “fragmentação” a-temporal, referida à
extensão) do universo dos “sonhos”. O sonho sempre pressuporia identidade e totalização.
E o mundo do viajante  é um mundo
lacunar. Na fé perceptiva busca-se a unidade do mundo e no sonho a unidade está
no sujeito. Merleau-Ponty, segundo Décio Gurfinkel, fala em uma “diferença de
estrutura” entre a percepção ou visão e o sonho, que não é observável.
Merleau-Pontu fala em um “vazio do imaginário”. Citando O visível e o
invisível, na pag. 18: “se podemos, ainda que ignoremos, retirarmo-nos do
mundo da percepção, nada nos prova que nele estivemos alguma vez, nem que o
observável o seja inteiramente, nem ainda que seja feito de tecido diferente do
sonho”. Décio Gurfinkel relembra aqui Pontalis, que no seu livro Entre a dor
e o sonho  toma a percepção no sonho
como modelo de toda percepção. No sonho se daria uma “alucinação verdadeira”
que seria a “consumação” completa do desejo. Seria “mais percepção do que toda
percepção de vigília” (Pontalis, p. 26 apud Gurfinkel)

Décio Gurfinkel acaba concordando e
discordando de Sergio Cardoso na oposição que este faz entre o sonho e a
viagem.  Concorda na medida em que,
enquanto sonha, predomina a visão no sonhador. Mas, quando o sonho é relatado a
um psicanalista, ou quando o sonhador debruça-se sobre seu sonho, “o sonho
produz a ‘vertical do estrangeiro’”(pag. 149). Se “as viagens são sempre
experiências de estranhamento” (Sergio Cardoso, p. 359)não há como não pensar o
sonho em um processo analítico como uma viagem. Freud já no levantamento
bibliográfico que introduz sua magistral obra A interpretação dos sonhos
relata como sendo comum a todos os pensadores o estranhamento diante do sonho.

Em texto de 1913, Sobre o início
do tratamento,citado por Giancarlo Ricci no livro As cidades de Freud [11]
assim Freud tenta explicar a “associação livre”: Diga tudo o que lhe passar
pela cabeça. Comporte-se, para dar um exemplo, como um viajante que se enta à
janela de um vagão de trem e descreve aos que estão em seu interior a mudança
de panorama diante dos seus olhos”.

Ricci observa que a analogia entre o
processo psicanalítico e a viagem fica ainda mais explicitado no texto de 1920,
Um caso de homossexualidade feminina. 
Ali Freud pensa em dois momentos no processo: o inicial, onde o analista
busca todas as informações necessárias e informa o paciente de todos os
pressupostos e postulados da análise. Afirma Freud: “Essa primeira fase
comprende todas todas as operações preliminares que permitem finalmente que se
tenha posse do bilhete ferroviário, que se precorra a plataforma e que se ocupe
o próprio lugar no vagão”. …”na segunda fase, o próprio doente se apropria do
material que lhe foi exposto, trabalha sobre ele, recorda tudo o que pode dos
conteúdos que supõe tenham sido recalcados e esforça-se para repetir o resto,
como se os revivesse”.  Conclui (apud
Ricci, p. 39): “Agora tem-se o direito e a possibilidade de viajar até a terra
distante, mas, apesar de todos esses preoparativos, ainda não se chegou lá e,
no fim das contas, não se chegou sequer um quilômetro mais perto da meta. Para
tanto, é preciso fazer a viagem dessa forma, de uma estação a outra, e esta parte
da viagem pode ser comparada à segunda fase da análise”.

Viagens e Cidades de Freud

Giancarlo Ricci traça uma analogia
entre o percurso freudiano e as cidades percorridas. Afirma : “ cada cidade
visitada transforma-se em uma etapa, uma reviravolta, uma ocasião da qual
brotam idéias, pensamentos, conjecturas”. Lendo Freud, Ricci afirma encontrar
“um caderno de viagem ou um diário de bordo onde pouco a pouco são anotadas
impressões, esboços de ideias…”  Freud
cultivou uma forte paixão por fronteiras, cumeadas, encruzilhadas.

A propósito da primeira teoria do
Freud sobre o inconsciente, explicitada em A interpretação dos sonhos (1900)
Ricci afirma tratar-se de “outra cena” que resude “nas dobras da mesma cena que
chamaos de realidade”. Não se trata de um outro espaço. Aliás, não se trata de
espacialidade mas sim da “verticalidade do estrangeiro”, como afirma Sergio
Cardoso e Décio Gurfinkel.  O sujeito do
inconsciente é andarilho permanente, sua posição é sempre excêntrica,
“antipiqueteira”  diria Manoel de Barros.

É linda a citação que Ricci faz de um
texto de Freud de 1936:

“Há tempos sabia com clareza que
grande parte do meu prazer de viajar consistia na satisfação de desejos
juvenis, isto é,  radicava-se na minha
insatisfação em relação à casa e à família. Quando pela primeira vez se vê o
mar, see atravessa o oceaano, tem-se uma experiência real de ciadade e de
países que durante muito tempo foram objetos de desejo distantes e
inatingíveis; quando se faz isso pela primeira vez, eu dizia, sentimo-nos como
um herói que realizou incríveis proezas. “

Ser psicanalista implica em um
permanente perambular entre fronteiras  e
línguas outras, navegando por mares nunca dantes navegados. A metáfora do
explorador, tão cara a Freud, vem da experiência clínica.

Os livros de sonhos – a
ancestralidade

Ainda hoje, nas bancas de revista, encontramos livros para a
decifração de sonhos. Livros que são utilizados para guiar no “jogo do bicho”
ou para orientar caminhos a serem tomadas. Jerusa Pires Ferreira, detendo-se na
“cultura das bordas” procura refletir sobre esse fenômeno[12]
afirmando que  substituiriam, em nosso
mundo contemporâneo, antigas práticas. Nesses livros, o caráter imagético da
linguagem onírica aparece em primeiro plano. Jerusa Pires Ferreira liga a capacidade
de sonhar à um espaço visionário, próprio ao mundo popular. A intensidade
sensorial apelaria “aos contornos e aos delineamentos do que se tipifica e
registra como pertencendo a esse universo”.

Os livros de sonhos também seriam elaborados a partir de
condensações e deslocamentos para compreender processos visionários. Citando: “
Uma ordem e uma disposição “visionária” nos oferecem a possibilidade de
fazer  próximos aos processos observados
por Freid e estes, no que se constata aqui, seguindo a fragmentação ou apenas a
repetição imposta pela indústria de edição”. (p. 76)

Jerusa vai nos mostrando como o enigma do sonho é desafio
antigo, que, na tradição roal cumpre um “diálogo permanente entre o presente e
um passado reencontrado e um futuro meio perceptível”.(p. 77) O sonho recusa ou
corrige a realidade, o que torna possível a aproximação entre sonho e
utopia.  No mundo popular essa “promessa
de felicidade” corresponderia à possibilidade de realização dos desejos. Jerusa
fala em caminhos restauradores e nos mostra a importância das chaves dos sonhos
em grupos sociais à deriva. Esses livros de sonhos nos levariam a uma memória
ancestral, na busca do desejo e da promessa.

Concluindo

Jerusa Pires Ferreira nos leva de volta ao trabalho de José
de Souza Martins: os sonhos nos mostram a possibilidade da utopia em um
sociedade opressora e sufocante.  Mas,
não para fazer uma sociologia do sonho mas para resgatar o sonho como  comunicação arcaica, como produção de grupos
que se investem afetivamente e se apoiam.

Décio Gurfinkel fala do sonho e da caminhada pela cidade:
espaços de uma subjetividade solta e espaços compartilhados.

René Kaës nos oferece uma teorização que pode ser bastante
útil. Em seu livro A polifonia do sonho[13]  quer compreender a experiência do sonho “em
seu ponto de articulação  no espaço
intrapsíquico comum e compartilhado”.(p. 28) Questiona então a ideia de um
espaço psíquico fechado propondo um segundo umbigo para o sonho, aquele
que  se nutre do espaço psíquico comum
compartilhado. Freud falava de um umbigo assentado no desconhecido e mais
profundo inconsciente ancorado na experiência corporal.Kaës propõe um
desconhecido ancorado no espaço psíquico comum compartilhado. Baseado na ideia
de polifonia de Bachtin, passa a pensar o sujeito  “urdido e trabalhado pela
intersubjetividade”.(p. 29) Isso o leva a indagar quem pensa, quem sente e quem
sonha no sonho..

Assim, deixa de soar como anti-psicanalítica a reflexão de
José de Souza Martins, pois algo do grupal atravessa sempre o sonho. Sua
crítica à concepção do sonho como acervo de fantasias agora aparece sob um
outro prisma. É preciso sim repensar o que venha a ser a fantasia, pois esta
sempre seria atravessada pela cultura, pelo grupo. Daí a possibilidade de falar
em uma ancestralidade transgeracional que se faz presente em todo sonho. É
disso que Jerusa Pires Ferreira fala ao revalorizar a tradição oral: modos não
institucionalizados, não congelados, de transmitir a história. A utopia e a
realização de desejos  caminham juntas na
possibilidade de transformar o mundo. Não é por acaso que, ainda em situações
extremas de dor e objetalização, o homem sonha. O sonho parece ser aquilo que faz
com que permaneça vivo, parece ser esse fio que nos liga à humanidade, esse
narcisismo básico que nos leva à identificação com a cultura. Com aquilo que
nos faz humanos.


[1] MARTINS, José de Souza (org) – Desfiigurações
– A vida cotidiana no imaginário onírico da metrópole, S.P., Hucitec, 1996.

[2]
Pontalis, JB PONTALIS, Jean-Bernard. A força de atração. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991

[3] BOLLAS,  
Cristopher – “A arquitetura e o Inconsciente” , Ver. De
Psicopatologia Fundamental,  III, I,
21-46,

[4] PONTALIS, jb – Perder de vista, RJ.,
Jorge Zahar, 1991

[5] ROUSSEAU, J.J. – Os devaneios do
caminhante solitário,  editora
Universidade de Brassília/Hucitec, 1986.

[6]  VI Colóquio Internacional “ Discursos e
Práticas Alquímicas”  Maria Leonor
Telles, “Os Jardins de William Blake

[7] GURFINKEL, Décio – Sonhar, dormir e
psicnalisar: viagens ao informe, SP, Fapespe/Escuta, 2008, p. 137.

[8] FERRAZ, Flávio C. – Andarilhos da
Imaginação, S.P. , Casa do Psicólogo,2000.  p.113:

[9] FRAYZE-PEREIRA, João A. – “Sobre o trágico,
mais ainda”
in KON, Noemi M. – A
vaigem, da literatura à psicanálise, SP. , Cia das Letras, 2003.

[10] CARDOSO, S. – “O olhar viajante (do
etnólogo)
in NOVAES. Adauto(org)  O Olhar, SP.. Cia das Letras, 1988.

[11] RICCI, Giancarlo – As cidades de Freud,
R.J. , Jorge Zahar Ed.2005.

[12] FERREIRA, Jerusa Pires – Cultura das
Bordas, S.P. Ateliê Editorial, 2010.

[13] KAËS, René – A polifonia do sonho,,
SP, Idéias e Letras, 2004.

1
Using Format